Cientistas usaram um anel vaginal que liberta um fármaco anti-HIV e conseguiram evitar a transmissão de uma combinação do vírus da imunodeficiência numa experiência que envolveu macacos. O artigo, com os resultados do trabalho, foi publicado nesta quarta-feira na revista Science Translational Medicine.
É um estudo que serve de prova de conceito. O anel vaginal usado em animais libertava um microbicida anti-HIV e conseguiu evitar a transmissão do SHIV, um vírus que é uma combinação de genes do HIV e do SIV (a versão deste vírus em macacos).
O trabalho é da responsabilidade da organização internacional não-governamental e não lucrativa chamada Population Council que envolve projectos de investigação em 50 países. “Os nossos resultados mostram que os anéis [vaginais] podem libertar um fármaco anti-HIV para prevenir a infecção”, resume Naomi Rutenberg, vice-presidente e director do Programa da Sida/HIV da Population Council.
Os animais usados no estudo receberam anéis vaginais com o anti-HIV ou simples placebos e foram expostos a uma única dose de SHIV. Em alguns animais os anéis com fármaco foram colocados duas semanas antes da exposição ao vírus noutros apenas 24 horas antes.
A remoção destes anéis aconteceu também em dois períodos diferentes. Em alguns, o anel foi retirado duas semanas depois e noutros, imediatamente antes da exposição ao vírus. Os anéis vaginais – do mesmo material dos anéis usados como contraceptivos – protegeram os animais independentemente da altura da sua colocação. Dois dos 17 macacos que receberam o anel com fármaco anti-HIV foram infectados com o vírus enquanto no grupo dos placebos o número de infecções foi de 11 em 16 animais. A protecção fica assim na ordem dos 83%, constatam os cientistas.
Porém, o momento da remoção parece produzir resultados diferentes já que os macacos que mantiveram os anéis por duas semanas apresentaram taxas mais elevadas de sucesso na prevenção da infecção. Assim, quatro dos sete macacos aos quais foram removidos os anéis com anti-HIV imediatamente antes da exposição ao vírus foram infectados. “Ficámos surpreendidos com o facto de os anéis terem de ser mantidos no local depois da exposição para serem eficazes”, comenta Tom Zydowsky, autor do estudo, no comunicado de imprensa.
“Em estudos anteriores do Population Council já tínhamos concluído que o recurso ao gel com MIV-50 [o anti-HIV usado nestes testes] e outro fármaco garantia uma protecção quando era aplicado 24 horas antes do contacto com o vírus mas era menos eficaz se fosse aplicado apenas depois da exposição. Pensámos que o anel usado neste estudo fosse preciso apenas antes da exposição ao vírus. Percebemos que é fundamental que o anel continue colocado após a exposição ao vírus”, adianta o mesmo comunicado.
Nos humanos, o uso do anel vaginal poderá ajudar a contornar alguns obstáculos que o gel coloca fazendo com que seja mais fácil para as utilizadoras cumprir o regime terapêutico recomendado. Com um anel deste género as mulheres candidatas a este tipo de protecção não teriam de se lembrar de colocar o gel diariamente.
“Este estudo não só fornece a prova de conceito para os anéis como também alarga as potenciais opções de microbicidas fornecendo novos dados promissores sobre a eficácia do anti-retroviral MIV-150. Como vimos, o MIV-150 é altamente eficaz na prevenção da infecção quando libertado por um anel”, acrescenta Melissa Robbiani, outra das autoras do estudo.

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