Nuno Gomes de Oliveira, director do Parque Biológico de Gaia, acaba de ver a reserva do estuário do Douro na rede nacional de áreas protegidas. Uma classificação só possível com mais de 30 anos de trabalho.
Tem 56 anos e formou-se em Ecologia Humana pela Universidade de Bordeús. Em 1983, Nuno Gomes de Oliveira iniciou, com o Núcleo Português de Conservação da Vida Selvagem, que esteve também na génese da Quercus, o projecto do Parque Biológico de Gaia, então com dois hectares. Hoje o parque é municipal (desde 1985), tem um orçamento de três milhões de euros, 35 hectares de extensão e prepara-se para crescer. É a partir dali que se gerem os outros espaços verdes de Gaia, incluindo o parque dunar do litoral do concelho e a Reserva Natural Local do Estuário do Douro, recentemente incluída na Rede Nacional de Áreas Protegidas. Mais do que isso, o Parque Biológico de Gaia transformou-se numa espécie de consciência ecológica de um dos maiores concelhos do país. Com noção de serviço público, mas também com a certeza de que a preservação da natureza também precisa de ser um espectáculo.
Estava à espera de que o estuário do Douro entrasse para a Rede Nacional de Áreas Protegidas depois de, em 1994, ter sido retirado da Reserva Ecológica Nacional?
São coisas diferentes. Em 1984, quando foi feita a primeira versão do Plano Director Municipal de Gaia, ainda havia, para aquele local, pretensões urbanísticas e portuárias, projectos muito complicados. Quando a Câmara de Gaia propôs que aquilo não fosse Reserva Ecológica Nacional, o Conselho de Ministros retirou essa protecção. Mas os projectos que havia, de um hotel em cima do Cabedelo, uma grande marina e um porto militar, por serem tão ridículos, acabaram por cair de podres. E, nesse caso, deixou de haver obstáculos à protecção ambiental do estuário. O PDM voltou a criar a reserva ecológica e, em cima disso, criou-se a área de reserva nacional local, sem qualquer escrutínio da administração central. Agora o que aconteceu foi apenas que também o Instituto de Conservação da Natureza se pronunciou e o estuário, embora sendo reserva local, passou a integrar a rede nacional de áreas protegidas.
Neste hiato de trinta anos, ao sabor das mudanças legislativas, uma área natural com esta importância poderia ter sofrido danos irreparáveis, não?
As situações são sempre reversíveis, só seriam irreparáveis se se tivesse construído alguma coisa naquele espaço. Se aqueles projectos tivessem avançado, sim. Mas não aconteceu.
O centro histórico do Porto chegou até nós preservado, e classificado como Património Mundial, porque a falta de dinheiro impediu que se concretizassem alguns projectos megalómanos da década de 1960. O estuário do Douro acabou por beneficiar da mesma coisa, não é assim?
Este caso tem paralelo com outras zonas naturais da região do Porto. A barrinha de Esmoriz, a antiga Reserva Ornitológica do Mindelo e a Serra de Santa Justa, que são os espaços fundamentais, com o estuário do Douro, para termos uma rede de espaços naturais na área metropolitana, estão há décadas à espera de qualquer coisa sempre ligada a empreendimentos imobiliários ou turísticos. Estes projectos têm sido um entrave à conservação da natureza. Quando vão caindo, torna-se possível preservar essas zonas. Haja vontade. A falta de dinheiro é a oportunidade para a conservação e esta crise também pode servir para isso. E para a conservação não é preciso muito dinheiro. No estuário do Douro gastamos 300 mil euros ou coisa que o valha, mas essencialmente com equipamentos de visitação, não com a conservação em si.
Quer no parque de Avintes, quer no Estuário do Douro, nota-se um cuidado em renaturalizar o espaço tendo em conta uma certa consciência cénica da observação da natureza. Até que ponto isso é fundamental para a percepção que as pessoas têm desses espaços?
É muito importante. A natureza, como qualquer coisa, precisa de ser bem embrulhada para cativar. Uma grande parte do sucesso que está a ter a reserva do estuário do Douro, mesmo do ponto de vista do cumprimento de regulamentos, deve-se à presença constante de visitantes. Isto é fundamental. Se não fosse ninguém visitar aquilo, já teríamos tido problemas. Uma das grandes medidas para proteger um sítio é dá-lo a conhecer. Dizer que quem não conhece não ama é um lugar-comum, mas é verdade. Daí a pressa em fazer o guia do estuário. É uma peça fundamental para a divulgação.
O facto de a vida selvagem naquele espaço ter passado a ser seguida até pela televisão, nomeadamente pela RTP, também ajudou?
É importantíssimo. O trabalho da comunicação social valoriza os sítios e dá-lhes credibilidade. E isso é fundamental para a preservação, quer do património natural, quer do património cultural.
É esse investimento na visibilidade que distingue o Parque do Estuário do Douro da Reserva Natural Regional Do Litoral do Grande Porto (antiga Reserva Ornitológica do Mindelo) e da Reserva Natural das Serras de Santa Justa, Pias e Castiçais?
Também é.
O que é que falta a esses dois parques?
Falta uma equipa local que abrace os projectos com alma e coração e os faça andar para a frente. Estas coisas não se fazem por encomenda, tem que haver uma alma. Isto é verdade para qualquer projecto, museus, bibliotecas... É preciso alguém que puxe pela carroça.
Também há falta de interesse das autarquias pela preservação da natureza?
Poucas autarquias dão a isso a importância que Gaia dá. Gaia está sempre aberta a este tipo de projectos e disposta a gastar dinheiro com isto. Outros municípios secundarizam isto, até porque não perceberam a importância que uma área protegida tem ou pode ter para o desenvolvimento local. Para a nova Marina do Douro, por exemplo, é muito importante poder dizer que tem ao lado uma reserva natural. Se a reserva do Mindelo fosse recuperada, seria importante para o ordenamento de todo aquele território, que é uma lixeira contínua.
Mas até que ponto a natureza pode ser importante para o desenvolvimento local? O que é que Gaia lucra com a reserva do estuário do Douro?
Numa cidade como Gaia, aquilo que os parques geram é percentualmente residual. Mas, por exemplo, desenvolvemos com a câmara de Vinhais um projecto de um parque biológico que está a funcionar muito bem, e que tem um impacte económico muito grande na região. É evidente que a importância é tanto maior quanto mais pequeno for o concelho. Mas a qualidade de vida faz-se de um conjunto de pequenas coisas.
O Parque Biológico acabou por se constituir como um nicho de excelência no domínio da conservação da natureza em Portugal. Teria sido possível, por exemplo, preservar o cordão dunar do litoral de Gaia e o estuário do Douro sem o know-how e a vigilância do Parque Biológico?
É verdade que começaram aqui os primeiros ensaios de passadiços e etc., que depois foram aplicados no litoral, e sobretudo a sensibilidade para a necessidade de intervir neste domínio. Fizemos agora um guia do estuário e houve a preocupação de incluir a história e a geologia. É evidente que para a interpretação do lugar, da sua identidade, é tão importante dizer quais são as aves que lá param como falar da geologia ou da arqueologia.
É justo dizer que a existência do Parque Biológico acabou quase por impor uma política ambiental aos sucessivos executivos da Câmara de Gaia?
Não impõe, mas sugere; e pressiona, por vezes. No geral, essa atitude tem sido bem acolhida. Há coisas que deixaram de se fazer por conselho nosso, outras que se fizeram por nossa sugestão. É também um pouco esse o nosso papel: ser a agência de ambiente do município.
A empresa municipal do Parque Biológico acabou por ser fundida, em 2011, com a Águas de Gaia. Poderia ser uma empresa autónoma à luz dos novos regulamentos criados pelo Governo?
Com a fusão, sim. Antes gerava uma receita que cobria 40% do orçamento. Mas essa é uma visão redutora. A grande maioria das tarefas que o Parque Biológico executa não tem qualquer retorno. Os outros jardins que gerimos não têm visitas pagas e a assessoria que prestámos à câmara nem sequer é contabilizada. Não se pode aferir o valor de uma coisa pelas receitas. A Reserva do Estuário do Douro, em termos contabilísticos, vale zero. Mas é um serviço público.
A fusão resultou?
O modelo funciona perfeitamente. Aliás, como agora não precisamos de serviços administrativos, até podemos estar mais concentrados nas nossas tarefas.
O parque é sustentável?
A sustentabilidade é uma coisa, o lucro é outra. A sustentabilidade tem que ter em conta o serviço que se presta.
Não é uma visão que esteja muito na moda.
Não é. Mas é fundamental que se perceba isto. Uma coisa vale muito mais do que aquilo que é contabilizado.
A visão economicista que está a contaminar tudo pode ser um retrocesso também para a conservação da natureza?
Acho que a conservação da natureza já atingiu a maioridade e já há coisas irreversíveis. Mas é verdade que, a nível nacional, se estão a consagrar muito poucos fundos para isto. Muito poucos. Continua-se a não perceber que a paisagem é fundamental para o desenvolvimento económico e, desde logo, para o turismo. Não há turismo sem paisagens protegidas, excepto aquele de praia e noite. Mas nunca se pensa em quanto vale a pega-azul que milhares de turistas vêm observar a Portugal.
O que é que lhe falta fazer em Gaia?
A criação da reserva do estuário foi um passo muito importante. Agora queremos concretizar o centro de interpretação da Afurada, que vai ser um complemento importante da reserva. E há em carteira uma série de parques que vão ser concretizados. Aqui no Parque Biológico, o grande objectivo é fazer o novo centro de recuperação de fauna. Recebemos três mil animais selvagens por ano, devolvemos mais de 50% à natureza, mas estamos a trabalhar em condições de algum improviso. Corremos o risco de que o prefabricado caia em cima da cabeça dos veterinários e dos animais. Estamos à espera de fundos comunitários para isso.
Ainda há outras zonas verdes do concelho de Vila Nova de Gaia para serem preservadas e descobertas?
Queremos aumentar o espaço verde por habitante, continua a haver necessidade disso. Mas o que há em Gaia são espaços residuais ou reliquiais, como uma zona no litoral, a poça da Lavra, que é o resquício de um antigo sistema lacustre que ia até à Ria de Aveiro. No Areinho de Avintes também ainda há uma zona húmida interessante, com um caniçal, mas de resto não há mais nenhuma área que valha a pena preservar.
Versão completa publicada às 9h36 de 15 de Maio.

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