Um grupo de 42 cientistas galardoados com o Prémio Nobel e com a medalha Fields escreveram uma carta em que pedem aos chefes de Estado e de Governo europeus mais apoio a um sector que pode dar uma “vantagem competitiva”.
A carta é divulgada numa altura em que se aproxima a reunião que irá debater o orçamento da União Europeia na área da ciência para 2014-2020. “Diz-se com frequência que toda a crise representa também uma oportunidade. A crise actual obriga-nos a fazer escolhas, e uma delas diz respeito à ciência e ao apoio à ciência”, lê-se na carta publicada também no PÚBLICO desta terça-feira e em mais 32 jornais de todo o mundo. O orçamento da Ciência será debatido exactamente daqui a um mês.
Na missiva, os signatários defendem que o conhecimento e a inovação são peças chave para o futuro europeu e lamentam que os decisores que em 2000 prometeram converter a área europeia da ciência na “mais dinâmica do mundo em 2010” tenham ficado muito longe do objectivo.
“A ciência pode ajudar-nos a encontrar respostas para muitos dos problemas prementes que enfrentamos: novas formas de energia, novas formas de produção de novos produtos e melhores modelos para entender como funcionam as sociedades e como melhorar a sua organização”, insistem os autores.
Segundo explicou à revista Nature um dos autores da carta e coordenador da Iniciativa para a Ciência na Europa, Wolfgang Eppenschwandtner, o orçamento está a ser negociado numa altura em que a presidência rotativa da União Europeia está na mão dos cipriotas, que apresentaram uma proposta “particularmente preocupante”. Por isso decidiram avançar com esta carta que é publicada nesta terça-feira em jornais como o El Pais, Financial Times, Le Monde e Frankfurter Algemeine Zeitung.
Na semana passada, um grupo de 68 laureados com prémios Nobel nas áreas da Física, Química e Medicina tinham enviado uma carta ao Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também com o objectivo de questionar a política norte-americana na área da inovação e ciência.
Fuga de cérebros
Na carta desta terça-feira, apesar de sublinharem que a Europa está na vanguarda em muitas áreas, os galardoados afirmam que falta transformar este conhecimento em inovação para que se possa “garantir a futura prosperidade da Europa a longo prazo”. E acrescentam: “O conhecimento não tem fronteiras. O mercado global de talento é altamente competitivo. A Europa não se pode dar ao luxo de perder os seus melhores investigadores, e ganharia muito em em atrair talentos estrangeiros”.
Por isso, os autores da carta criticam a progressiva redução de fundos disponíveis para quem faz investigação de excelência e que se tem traduzido numa quebra no número de investigadores e de trabalhos. “No caso de uma severa redução do orçamento comunitário de investigação e inovação corrermos o risco de perder uma geração de cientistas de talento, precisamente quando a Europa mais precisa deles”, justificam.
Embora a investigação ocupe um lugar destacado na agenda política europeia, segundo dados do Eurostat, nos últimos anos a despesa em investigação e desenvolvimento foi de 1,9% do PIB na Europa, contra 2,7% nos Estados Unidos e 3,2% no Japão. Além disso, há fortes assimetrias entre os Estados-membros.
A carta elogia, porém, o trabalho que o Conselho Europeu de Investigação tem conseguido fazer no sentido de financiar e apoiar os melhores investigadores na Europa, independentemente da sua nacionalidade. Os autores defendem, por isso, que este exemplo seja seguido e que o financiamento da investigação seja mais centralizado em vez de ficar disperso nas mãos dos países, para se conseguir aproveitar melhor os recursos disponíveis.
Os 27 países da UE têm vindo a discutir nos últimos meses o orçamento plurianual para 2014-2020. A primeira reunião, no final de Agosto, em Nicósia, Chipre, revelou grandes divergências entre os Estados-membros. O objectivo, de acordo com fonte da presidência rotativa, agora a cargo de Chipre, é “fechar” um acordo até ao final do ano, designadamente na cimeira extraordinária de líderes europeus agendada para 22 e 23 de Novembro. Os presidentes da Comissão Europeia, do Conselho, do Parlamento Europeu e da presidência rotativa da UE garantiram que vão desenvolver todos os esforços possíveis para que o orçamento comunitário para o período 2014-2020 seja acordado ainda este ano.
Signatários
A carta é assinada por Sidney Altman, Werner Arber, Robert J. Aumann, Françoise Barré-Sinoussi, Günter Blobel, Mario Capecchi, Aaron Ciechanover, Claude Cohen-Tannoudji, Johann Deisenhofer, Richard R.Ernst, Gerhart Ertl, Martin Evans, Albert Fert, Andre Geim, Serge Haroche, Avram Hershko, Jules A. Hoffmann, Roald Hoffmann, Robert Huber, Tim Hunt, Eric R. Kandel, Klaus von Klitzing, Harold Kroto, Finn Kydland, Jean-Marie Lehn, Eric S. Maskin, Dale T. Mortensen, Erwin Neher, Konstantin Novoselov, Paul Nurse, Christiane Nüsslein-Nolhard, Venkatraman Ramakrishnan, Richard J. Roberts, Heinrich Rohrer, Bert Sakmann, Bengt I. Samuelsson, John E. Sulston, Jack W. Szostak, John E. Walker, Ada E. Yonath, Rolf Zinkernagel, Harald Zur Hausen, Pierre Deligne, Timothy Gowers, Maxim Kontsevich, Stanislav Smirnov e Cedric Villani.

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