Quando era criança, Brianna Karp fez testes de inteligência que revelaram capacidades muito acima da média (o que não foi uma surpresa: tinha aprendido a ler praticamente sozinha, quando tinha apenas dois anos). Chegou a saltar um ano na escola primária. Fez o liceu sem dificuldades, apesar de ter tido vários empregos durante esse período. Foi para a faculdade e acabou por conseguir um trabalho que lhe permitia pagar um apartamento de 1500 dólares por mês no Sul da Califórnia.
Hoje tem 24 anos, uma aparência cuidada, não tem problemas de saúde, nem historial de abuso de álcool ou de consumo de drogas. Em Fevereiro, foi viver para uma caravana velha, que herdou do pai suicida e que está permanentemente estacionada num parque da gigantesca cadeia de lojas Walmart. A história está contada no blogue The Girls Guide to Homelesseness, que Brianna decidiu criar quando percebeu que estava prestes a tornar-se uma sem-abrigo.
À Pública, explica como nasceu a ideia: “Quando percebi que ia ficar sem casa, fui à Internet e deparei-me com alguns [blogues escritos por pessoas sem-abrigo]. Isso surpreendeu-me. Mas neles encontrei ajuda sobre como sobreviver.” Em The Girls Guide to Homelesseness, Brianna desafia a imagem convencional de um sem-abrigo. O lema do blogue é: “Podes ser um sem-abrigo, mas não precisas de ser um vagabundo.” Para além de relatos pessoais e de conselhos sobre como viver sem casa, Brianna relata ainda as peripécias que fizeram com que se tornasse numa minicelebridade (com direito a entrevistas em canais como a CNN) e revela a história da sua vida.
Nem tudo na infância de Brianna foi tão brilhante como o percurso escolar. Foi criada pela mãe, que tinha problemas de saúde mental. Diz ter sido vítima de “abusos físicos, mentais e emocionais” até aos 18 anos, quando saiu de casa para ir para a universidade. Uma vez, ainda criança, foi abusada sexualmente por um familiar. Começou a trabalhar ilegalmente aos dez anos — “sabia fazer-me passar por mais velha” — e legalmente a partir dos 12. Teve vários trabalhos temporários e, depois de tirado o curso universitário, passou rapidamente por alguns empregos mal pagos até que conseguiu uma posição como assistente executiva numa grande empresa
“Quando consegui o trabalho, respirei de alívio. Podia concentrar-me num único emprego, estava a ganhar o suficiente para viver sozinha, na minha própria casa. Aluguei um apartamento engraçado perto da praia e comecei a gozar a vida que tinha construído.”
Em 2008, porém, chegou a crise económica e mais de metade dos funcionários da empresa onde trabalhava foram despedidos — entre os quais Brianna. Deixou de poder pagar o apartamento e regressou a casa da mãe. Ao fim de poucos meses de convívio difícil, estava disposta a ir para a rua. Até que recebeu a notícia de que o pai (que não via desde os quatro anos) se tinha suicidado.
A herança, escreveu no blogue, consistia numa caravana velha, “com cheiros esquisitos (a gordura, queijo e animais/peixes mortos)”. Em vez de ir para as ruas, Brianna mudou-se para um parque de estacionamento. A caravana não tinha água, muito menos acesso à Internet. Por isso, Brianna passava muito tempo nos cafés Starbucks (uma cadeia muito popular nos EUA e que este ano chegou a Portugal), onde é possível aceder gratuitamente à Internet. O facto de ter boa aparência fazia com que ninguém a incomodasse — seria mais difícil permanecer um dia inteiro sentada a bebericar café e a navegar na Web se tivesse o aspecto típico de uma sem-abrigo.
Imagem desajustada
Brianna — com um curso superior, o rosto maquilhado e o ar sorridente das fotos que publica na Net — foge à imagem convencional de quem não tem uma casa. Mas a imagem convencional também foge frequentemente ao mundo real.
“Penso que a imagem típica [que se faz] das pessoas sem-abrigo não corresponde à realidade, ou, pelo menos, é uma imagem muito vaga e geral”, observa Duarte Brasil Paiva, presidente da Associação Conversa Amiga, que desenvolve projectos de apoio a sem-abrigo nas ruas portuguesas. “Concluo isto por conversas que tenho com amigos ou conhecidos e por reportagens televisivas sazonais.”


