Redes de telecomunicações têm "limitações" para a era dos conteúdos de banda larga

11.11.2009 - 17:27 Por João Pedro Pereira
O desenvolvimento de redes de alta velocidade “está a ocorrer mais rapidamente do que aquilo que a maioria dos analistas esperava”, mas a tecnologia actualmente em uso nas telecomunicações ainda não serve para as exigências a curto prazo dos muitos milhares de utilizadores que acedem a conteúdos que requerem uma grande largura de banda.
A explicação é do vice-presidente dos Bell Labs Gee Rittenhouse, responsável pela investigação naquela que é uma das mais prestigiadas instituições científicas do mundo.
“O volume de dados a serem transmitidos sobre as redes está já a causar mudanças na forma como estas funcionam e são geridas”, disse Rittenhouse ao PÚBLICO. “Se a indústria está a desenvolver soluções de forma suficientemente rápida para responder ao desafio do crescimento exponencial da procura de aplicações que precisam de grande largura de banda é uma situação que iremos verificar brevemente. [Mas] estamos conscientes das limitações da tecnologia actual para responder a esse desafio”.
Para além da utilização intensiva da Internet, um dos desafios para as redes de telecomunicações é o aumento da popularidade dos smarpthones. Para Rittenhouse o número de aparelhos deste género (e que actualmente ainda é uma percentagem relativamente reduzida do mercado total de telemóveis) vai atingir um ponto de viragem, a partir do qual os dados transmitidos em smartphones terão um peso significativo nas infra-estruturas de comunicações.
Tendo este tipo de problemas em vista, os Bell Labs bateram recentemente um recorde de transmissão de dados. Utilizando fibra óptica, os cientistas fizeram 100 petabits de dados – “mais ou menos o mesmo que 400 DVD”, explica Rittenhouse – viajar a um quilómetro por segundo, numa distância de milhares de quilómetros. A velocidade é cerca de dez vezes superior à das actuais redes de grande distância.
Fábrica de Prémios Nobel
Os Bell Labs, em Nova Jersey, EUA, fazem lembrar um grande campus universitário, com vários edifícios de tijolo cercados por jardins. O espaço foi precisamente concebidos para sere parecido com uma universidade. Nos anos 40, nomeadamente durante a II Guerra Mundial, os Bell Labs faziam investigação para fins militares e a aparência de ums instituição de ensino pretendia fazer com que passassem despercebidos em caso de um eventual ataque.
Ao todo, 13 cientistas dos Bell Labs já ganharam sete Prémios Nobel – e os mais recentes laureados com o Nobel da Física, Willard S. Boyle e George E. Smith, foram investigadores nestes laboratórios (o prémio foi dividido com o investigador chinês Charles K. Kao).
Nos anos recentes, os laboratórios, que são propriedade da Alcatel-Lucent (uma companhia formada em 2006 pela fusão das duas empresas que lhe dão o nome), têm vindo a abandonar algumas áreas de investigação e a fazer spin-offs de outras – e a concentrar esforços no desenvolvimento de tecnologia que sirva os produtos da casa-mãe.
Há quem aponte que estas mudanças podem originar uma quebra na qualidade da investigação científica e que esta se está a afastar das áreas em que os laboratórios se celebrizaram e nas quais desenvolveram trabalhos que acabaram por conseguir Prémios Nobel.
“Gostaria de clarificar que o orçamento para a Investigação & Desenvolvimento é de mais de 2500 milhões de euros, o que representa, aproximadamente, 15 por cento das nossas receitas anuais”, sublinha Rittenhouse, em resposta a esta questão. “O tipo de investigação nos Bell Labs pode ter mudado, mas a cultura e o foco fundamental em inovar nos laboratórios não mudou”.

