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Ben Huh é responsável pelo fenómeno dos LOLcats

O estranho humor da Internet é um negócio sério

27.11.2009 - 11:27 Por Pedro Rios

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É possível que o leitor já tenha visto alguma destas coisas na Internet: fotografias de gatos com frases mal escritas em situações hilariantes e imagens que revelam falhas estrondosas da acção humana - como um parque infantil com um escorrega que leva as crianças a um buraco de cimento.
Ben Huh é alérgico a gatos, mas está a construir uma pequena fortuna à custa dos LOLcats e de outros fenómenos da Internet Ben Huh é alérgico a gatos, mas está a construir uma pequena fortuna à custa dos LOLcats e de outros fenómenos da Internet (DR)

Para muitos milhares de pessoas, imagens destas fornecem alguns segundos ou minutos diários de humor durante os tempos livres ou, à socapa, no horário de trabalho. Para Ben Huh, de 31 anos, um sul-coreano que emigrou na adolescência para a Califórnia, nos Estados Unidos, e os investidores da Cheezburger Network, a empresa na qual é director executivo, elas são algo de sério. Muito sério mesmo: a empresa tem receitas anuais na casa dos milhões de dólares (os números são confidenciais), o que faz dela um exemplo de como fazer dinheiro na Internet, uma missão que nem sempre é fácil (o popularíssimo YouTube ainda não atingiu esse objectivo básico de uma empresa: dar lucro). A empresa garante que começou a ser lucrativa desde a sua fundação e continuou nesse caminho mesmo durante a crise.

"Não fazemos nada de extraordinário. Não estamos a curar o cancro, não estamos a criar a próxima plataforma de comunicação. O nosso trabalho é fazer as pessoas felizes alguns minutos por dia. As pessoas ficam fascinadas por termos construído um modelo de negócio à volta de fazer as pessoas felizes", diz Ben Huh, ao telefone com o P2 a partir do escritório da Cheezburger Network, em Seattle.

Huh pode não fazer "nada de extraordinário" e até ficar "surpreendido por muitas pessoas não acharem que há aqui uma empresa", mas nem ele previu o crescimento do negócio, que se transformou num improvável pequeno império, que ganha dinheiro em publicidade, merchandising, livros e outras fontes de receitas. Os principais responsáveis são o I Can Has Cheezburger? (com imagens cómicas que envolvem gatos, conhecidas na internet como LOLcats - um fenómeno de popularidade) e o Failblog, com situações de falhanço hilariantes, mas a empresa conta hoje com cerca de 20 sites.

A Cheezburger Network começou em 2007, ainda com o nome Pet Holdings, com a compra do I Can Has Cheezburger?, criado por dois havaianos, que registava 500 mil páginas vistas (pageviews) por dia. Através de um amigo, conseguiu chegar a um grupo de investidores, que, ultrapassado o espanto inicial ("Investir num site com imagens de gatos e frases esquisitas?"), viram potencial no I Can Has Cheezburger?. Hoje, os vários sites da Cheezburger Network ultrapassam as seis milhões de pageviews diárias. Huh estima que dois por cento da população dos Estados Unidos visite um dos seus sites pelo menos uma vez por mês. Por isso, o empresário tem sido alvo da atenção de vários quadrantes, contando a sua história a várias publicações, desde títulos especializados em economia à generalista Time.

Cultura mais democrática

Como ele próprio diz, o que Huh, licenciado em Jornalismo e, ironicamente, alérgico a gatos, fez não foi inventar uma nova forma de humor. Ela já existia na Internet, em sítios como o 4chan, um fórum onde terão nascido fenómenos como os LOLcats e o RickRolling. O que Huh faz é encontrar formas de capitalizar com esta cultura emergente, radicalmente diferente da cultura reproduzida nos meios de comunicação de massa. Trouxe-a para o mainstream, popularizou-a - os LOLcats são tema de livros, aplicações para o iPhone, um musical e até surgem em rótulos de garrafas de gasosa - e conseguiu criar um negócio que resiste às modas da Internet, identificado os fenómenos mais duradouros (os LOLcats terão quase cinco anos, uma eternidade no mundo digital).

"Há uma nova cultura em formação e está a influenciar uma geração de pessoas, que está a crescer com uma nova forma de entretenimento", observa. É uma cultura "mais fragmentada, idiossincrática, mais afunilada, auto-referencial". E também mais superficial, como muitos temem? "As pessoas dizem isso há gerações: a cultura da nova geração é sempre menos interessante do que a cultura na qual cresceram. É uma perspectiva de vistas curtas."

É uma cultura "muito mais democrática, que reflecte mais o que as pessoas gostam", continua Huh. Por dia, a Cheezburger Network recebe cerca de dez mil imagens enviadas pela sua comunidade de utilizadores. Cabe aos 23 trabalhadores da empresa (Huh tem contratado um novo funcionário por mês) filtrar o material, impedindo a publicação de material pornográfico ou violento. A partir daí, o filtro editorial fica do lado dos utilizadores: são eles que, pelo voto, decidem que imagens são hilariantes o suficiente para estarem na primeira página.

"Há aquela frase de Andy Warhol, que diz que no futuro toda a gente será famosa durante 15 minutos da sua vida. Agora é mais: cada pessoa será famosa [na Internet] para 1500 pessoas. A percepção de fama está a mudar. Pode-se ser engraçado para um núcleo de amigos. É um mundo em rede, muito diferente do mundo dos media de massa. As pessoas podem partilhar a sua criatividade. É isso que as faz feliz", refere.

O I Can Has Cheezburger? e o Failblog já existiam antes da Cheezburger Network os comprar, mas a comunidade de fãs leais é hoje a principal fornecedora de ideias para novos sites. O Roflrazzi, que em vez de gatos usa imagens de celebridades, nasceu porque 10 a 20 por cento das imagens que os utilizadores construíam na ferramenta para construir LOLcats eram com figuras do mundo do entretenimento. "Temos uma lista de pelo menos 150 ideias. Tentamos perceber qual vamos aplicar de seguida", diz.

"Keep it simple"

Não se pense, porém, que a Cheezburger Network tem um escritório luxuoso ou megalómano, à semelhança dos gigantes Google e Facebook. O escritório tem pouco mais de 50 metros quadrados e Huh trabalha na sala exígua dos servidores, que facilmente se transforma num Inferno, em termos de temperatura. O director executivo da empresa gosta de dizer que "ser empreendedor não é sexy" e a sua experiência comprova-o.

Este aspecto frugal mantém a empresa "focada" e está a ajudá-la a atravessar a crise económica continuando com lucros, apesar da quebra no investimento publicitário. Huh sabe que os fenómenos da Net morrem com rapidez e segue o princípio "Keep it simple, stupid", até no aspecto quase amador dos sites (baseados em tecnologia de criação de blogues de código aberto). Talvez por isso não siga um plano de negócios.

Huh é um optimista. Viu no terreno a bolha das dot.com a explodir, na passagem do século. Hoje, a atitude perante a rede é "muito mais realista". "A Net agora tem modelos de negócios viáveis, enquanto na altura andávamos todos à procura de um. Hoje há várias formas de fazer dinheiro online; há 10 anos, não havia nenhuma."Há um infindável número de formas de humor, muito diferentes das tradicionais, que surgem na Internet de forma viral. As características da rede - a sua velocidade e facilidade de partilha - propiciam o seu desenvolvimento. Know Your Meme (www.knowyourmeme.com) é uma boa base de dados destes futuros artefactos da cultura contemporânea. Eis alguns dos fenómenos mais conhecidos:

Viral e idiossincrático: O humor que desponta na rede

LOLcats

São as famosas imagens de gatos com uma linguagem específica, uma mistura de inglês com erros ortográficos propositados (o LOLspeak). "LOL" é uma abreviatura para laughing out loud ("estou a rir-me muito alto"). O Nobel da Economia Paul Krugman já utilizou um LOLcat no seu blogue no site do New York Times.

Rickrolling

Uma das mais conhecidas partidas da Internet. Consiste em enviar um endereço de Internet disfarçado (há sites que o permitem fazer facilmente) no meio de uma conversa, fingindo que aquela página está relacionada com o tema. Na verdade, trata-se do teledisco de Never Gonna Give You Up, do cantor pop Rick Astley. O primeiro vírus para iPhone chama-se Rick Astley e coloca uma imagem do cantor no fundo do ecrã.

Fail

O Failblog, da Cheezburger Network , não é o único site que compila estas situações de falhanço. Mas ajudou a popularizar o conceito e até o uso desta palavra em vários contextos. Fail, cuja utilização principal era, até há pouco tempo, enquanto verbo, passou a ser usada também como substantivo, notava a revista digital Slate em Outubro de 2008. A culpa é, em grande parte, do Failblog. A revista sugeria ainda que o falhanço da economia global terá ajudado a tornar quase ubíqua a ideia de fail.

Google Autocomplete

A Cheezburger Network criou um site só para as sugestões de pesquisa que o Google fornece quando começamos a digitar o que queremos procurar. O Google sugere pesquisas a partir de pesquisas feitas por outros utilizadores. "Como saber se estamos mortos?" é uma das perguntas ao Google que se encontra no Autocomplete Me (http://autocompleteme.com/).

O RLY?

Lê-se Oh, really? ("A sério?") e é uma expressão do "internetês" usada para gozar com alguém que diga algo óbvio num fórum. Surge geralmente com uma fotografia de uma coruja com "expressão" de surpreendida.

Kanye West nos MTV Video Music Awards 2009

Depois de Kanye West ter entrado em palco e interrompido Taylor Swift, que tinha acabado de receber um prémio, surgiu um número infindável de imagens e vídeos que imaginam Kanye a fazer o mesmo em diversas situações, desde a Última Ceia à Declaração da Independência dos Estados Unidos.

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