É possível que o leitor já tenha visto alguma destas coisas na Internet: fotografias de gatos com frases mal escritas em situações hilariantes e imagens que revelam falhas estrondosas da acção humana - como um parque infantil com um escorrega que leva as crianças a um buraco de cimento.
Para muitos milhares de pessoas, imagens destas fornecem alguns segundos ou minutos diários de humor durante os tempos livres ou, à socapa, no horário de trabalho. Para Ben Huh, de 31 anos, um sul-coreano que emigrou na adolescência para a Califórnia, nos Estados Unidos, e os investidores da Cheezburger Network, a empresa na qual é director executivo, elas são algo de sério. Muito sério mesmo: a empresa tem receitas anuais na casa dos milhões de dólares (os números são confidenciais), o que faz dela um exemplo de como fazer dinheiro na Internet, uma missão que nem sempre é fácil (o popularíssimo YouTube ainda não atingiu esse objectivo básico de uma empresa: dar lucro). A empresa garante que começou a ser lucrativa desde a sua fundação e continuou nesse caminho mesmo durante a crise.
"Não fazemos nada de extraordinário. Não estamos a curar o cancro, não estamos a criar a próxima plataforma de comunicação. O nosso trabalho é fazer as pessoas felizes alguns minutos por dia. As pessoas ficam fascinadas por termos construído um modelo de negócio à volta de fazer as pessoas felizes", diz Ben Huh, ao telefone com o P2 a partir do escritório da Cheezburger Network, em Seattle.
Huh pode não fazer "nada de extraordinário" e até ficar "surpreendido por muitas pessoas não acharem que há aqui uma empresa", mas nem ele previu o crescimento do negócio, que se transformou num improvável pequeno império, que ganha dinheiro em publicidade, merchandising, livros e outras fontes de receitas. Os principais responsáveis são o I Can Has Cheezburger? (com imagens cómicas que envolvem gatos, conhecidas na internet como LOLcats - um fenómeno de popularidade) e o Failblog, com situações de falhanço hilariantes, mas a empresa conta hoje com cerca de 20 sites.
A Cheezburger Network começou em 2007, ainda com o nome Pet Holdings, com a compra do I Can Has Cheezburger?, criado por dois havaianos, que registava 500 mil páginas vistas (pageviews) por dia. Através de um amigo, conseguiu chegar a um grupo de investidores, que, ultrapassado o espanto inicial ("Investir num site com imagens de gatos e frases esquisitas?"), viram potencial no I Can Has Cheezburger?. Hoje, os vários sites da Cheezburger Network ultrapassam as seis milhões de pageviews diárias. Huh estima que dois por cento da população dos Estados Unidos visite um dos seus sites pelo menos uma vez por mês. Por isso, o empresário tem sido alvo da atenção de vários quadrantes, contando a sua história a várias publicações, desde títulos especializados em economia à generalista Time.
Cultura mais democrática
Como ele próprio diz, o que Huh, licenciado em Jornalismo e, ironicamente, alérgico a gatos, fez não foi inventar uma nova forma de humor. Ela já existia na Internet, em sítios como o 4chan, um fórum onde terão nascido fenómenos como os LOLcats e o RickRolling. O que Huh faz é encontrar formas de capitalizar com esta cultura emergente, radicalmente diferente da cultura reproduzida nos meios de comunicação de massa. Trouxe-a para o mainstream, popularizou-a - os LOLcats são tema de livros, aplicações para o iPhone, um musical e até surgem em rótulos de garrafas de gasosa - e conseguiu criar um negócio que resiste às modas da Internet, identificado os fenómenos mais duradouros (os LOLcats terão quase cinco anos, uma eternidade no mundo digital).
"Há uma nova cultura em formação e está a influenciar uma geração de pessoas, que está a crescer com uma nova forma de entretenimento", observa. É uma cultura "mais fragmentada, idiossincrática, mais afunilada, auto-referencial". E também mais superficial, como muitos temem? "As pessoas dizem isso há gerações: a cultura da nova geração é sempre menos interessante do que a cultura na qual cresceram. É uma perspectiva de vistas curtas."


