NY Times manteve em segredo história de jornalista raptado por Taliban

29.06.2009 - 13:11 Por João Pedro Pereira
Manter uma notícia fora das páginas dos jornais e dos sites não costuma ser o trabalho de um jornal – mas foi o que o New York Times fez, para ajudar o seu repórter David Rohde a escapar de um sequestro por Taliban. A maior dificuldade foi manter em silêncio os utilizadores da Wikipedia.
O jornalista David Rhode foi capturado por um grupo Taliban a 10 de Novembro do ano passado, juntamente com um jornalista local, contratado como tradutor, e com um motorista.
Para evitar que os raptores o considerassem valioso, o jornal optou por manter a história em segredo. A lógica seguida foi a de que os Taliban procurariam saber através da Internet quem era o refém – e quanto mais referências houvesse a Rohde, mais difícil seria conseguir um resgate ou mantê-lo vivo.
Só agora, que o jornalista e o tradutor conseguiram escapar (o condutor optou por juntar-se aos captores), a história veio a público, nas páginas do próprio New York Times.
Fazer com que o assunto não chegasse aos outros órgãos de informação foi simples, explicou o director executivo do New York Times, Bill Keller. Bastou pegar no telefone. A grande dificuldade foi manter a página de Rohde na Wikipedia sem referências ao sequestro (apesar de não ser uma celebridade, o jornalista é um conhecido repórter de investigação e já ganhou um Pulitzer).
O jornal contactou o fundador da Wikipedia, Jimmy Wales, que fez com que alguns administradores da enciclopédia cooperassem para manter o assunto em segredo – mas não sem provocar a revolta de alguns utilizadores.
O jornal conta que um utilizador da Florida, EUA, foi particularmente persistente em tentar fazer com que o sequestro fosse adicionado à página de David Rohde. Os administradores tiveram que apagar várias vezes o texto relativo ao caso e chegaram a trancar a página, de forma a evitar que ela pudesse ser alterada.
Como o utilizador da Florida era anónimo, foi impossível contactá-lo a explicar a estratégia.
O bloqueio não foi inteiramente bem-sucedido. Logo nos dias que se seguiram ao rapto, algumas agências de informação afegãs deram a notícia, que se espalhou também por blogues.
Em teoria, toda a informação na Wikipedia deve provir de fontes credíveis e agências noticiosas afegãs serviriam como fonte fidedigna para a maioria dos casos. Mas, apoiados pelo facto de os grandes órgãos de informação não terem publicado nada, os administradores da Wikipedia foram usando o pretexto da falta de fontes para manter o assunto fora do site.
Um jornalista amigo de Rohde também alterou a página do repórter, realçando que o trabalho deste tinha um ângulo pró-muçulmano. E, tanto da página da Wikipedia como da biografia de Rohde no site do New York Times, foi retirada a referência aos trabalhos para o jornal americano The Christian Science Monitor (por causa da palavra “cristão”). As alterações violam as regras da enciclopédia online.
A Wikipedia já tem, agora, uma descrição da história – onde não falta uma referência às críticas pelo corte de informação levado a cabo pelos responsáveis.

