Jogo que critica fabrico de iPhones banido da loja da Apple

13.09.2011 - 21:12 Por João Pedro Pereira
Um jogo para iPhone que ilustrava de forma crítica as várias fases do processo de fabrico deste telemóvel esteve nesta terça-feira disponível na loja de aplicações da Apple, mas acabou por ser retirado.
Chamado Phone Story e com gráficos simplistas de desenho animado, o jogo colocava o jogador em cenários que iam desde a exploração mineira no Congo dos materiais usados (onde surgem trabalhadores vigiados por guardas armados), até uma fábrica onde era preciso salvar os funcionários do suicídio (ficou conhecido o caso da fabricante chinesa Foxconn, que produz dispositivos da Apple e onde se registaram vários suicídios, pelo menos um relacionado com a perda de um protótipo do iPhone 4).
“Phone Story é um jogo educacional sobre o lado negro do seu smartphone favorito”, lê-se na descrição publicada no site da aplicação, que critica também o consumismo e a estratégia de lançar modelos que sucessivamente deixam o anterior desactualizado: “Siga a viagem do seu telemóvel à volta do mundo e combata as forças do mercado numa espiral planeada de obsolescência”.
Para além das minas e da fábrica chinesa, o jogo incluía ainda um cenário de tratamento de lixo electrónico no Paquistão (os criadores afirmam que o lixo electrónico é frequentemente eliminado de forma nociva para o ambiente e a saúde) e um cenário de uma loja da Apple, símbolo “do consumismo de gadgets no Ocidente”.
As receitas do jogo – que tinha o patamar mínimo de preço na loja da Apple: 99 cêntimos de dólar, ou 79 cêntimos de euro – reverteriam integralmente para organizações sem fins lucrativos dedicadas à protecção de trabalhadores.
Phone Story foi desenvolvido pela Molleindustria, que se define como “uma equipa italiana de artistas, designers e programadores com o objectivo de começar uma discussão séria sobre as implicações sociais e políticas dos videojogos”. A Molleindustria já desenvolveu vários outros jogos, incluindo um com base no fenómeno WikiLeaks, outro sobre a pedofilia na Igreja Católica e outro sobre os direitos de autor e a cultura de partilha. Vários destes títulos podem ser jogados directamente a partir da Web.
A Apple tem já um longo historial de retirar (ou negar a entrada) de aplicações na sua loja. Um dos casos conhecidos é o da aplicação do cartoonista Mark Fiore, retirada por satirizar políticos. Fiore acabou por ganhar um prestigiado prémio Pulitzer e foi convidado a reenviar a aplicação.
Segundo a Molleindustria, a Apple nomeou vários problemas com o jogo para justificar a exclusão, incluindo imagens de “violência e abuso sobre crianças” e questões relacionadas com a doação do dinheiro a instituições. Segundo os responsáveis por Phone Story, as questões dos donativos não se aplicam, já que os compradores não podiam doar dinheiro directamente, sendo antes as receitas das vendas encaminhadas para instituições.
Os planos da Molleindustria passam agora por reformular o jogo para que possa passar pelo filtro da Apple ou simplesmente relançar a aplicação para telemóveis Android e para telemóveis iPhone que estejam desbloqueados para poderem instalar aplicações contornando a loja da Apple.
A Apple não fez comentários públicos sobre o assunto.

