As grandes prosas não são populares na Internet. O Twitter marcou um estilo, com os seus rigorosos 140 caracteres por mensagem. À imagem desta rede social têm vindo a proliferar os sites e blogues em que os utilizadores contam uma história em poucas palavras. Uns mais humorísticos, como o Fuck My Life, e outros mais inspiradores, como o Gives Me Hope. Mas o fundo comum é o mesmo: a partilha de pequenos episódios quotidianos, detalhes íntimos e/ou embaraçosos, celebrados mundialmente com o blogue de culto Post Secret, que tem uma legião de fãs em todo o mundo, quatro livros publicados e uma exposição itinerante nos EUA.
São pessoas comuns às quais acontecem coisas extraordinárias. Ou não. Podem ser pequenas coisas, que nos recordam que os seres humanos são todos feitos da mesma massa. No expoente máximo da Web 2.0 – a Internet das redes sociais, feita para a comunicação entre as pessoas – os sites e blogues colectivos em que as pessoas contam as suas histórias íntimas transformaram-se em clássicos instantâneos, alguns dos quais chegam a atingir dimensões de culto. Tudo isto em pouquíssimas palavras.
O blogue Post Secret, iniciado pelo norte-americano Frank Warren, foi um dos primeiros. Neste caso o projecto é simultaneamente textual e visual. Partindo de uma premissa simples – “Confissões Extraordinárias de Vidas Comuns” –, o autor começou o projecto em Novembro de 2004 pedindo aos leitores que lhe enviassem, anonimamente, um postal artístico contando os seus segredos mais bem guardados. Os mais difíceis de admitir. Os mais dolorosos. “Sejam breves. Sejam legíveis. Sejam criativos”, pedia o autor. A resposta não se fez esperar. No primeiro ano o autor do blogue colectivo recebeu mais de 10 mil postais. Com isto publicou um primeiro livro com os melhores. Depois um segundo, um terceiro e um quarto. Segredos obscuros transformaram-se na noção colectiva de que todos passamos pelos mesmos problemas, pelas mesmas dúvidas, pelos mesmos rancores. As micro-narrativas de dor e ódio começavam a abrir caminho.
Vem aí a “Twitteratura”
Depois veio o Twitter, que conheceu a verdadeira explosão de popularidade nos primeiros meses deste ano. Com uma particularidade: ser uma rede de micro-blogging em que as pessoas teriam que escrever as suas mensagens em pedaços de 140 caracteres. Muitos sms levam mais letras. O princípio parecia estranho, mas entranhou-se nas malhas da popularidade online. A par com contas de famosos e anónimos, há toda uma multidão de twitters a produzir micro-narrativas. Até já está em marcha um fenómeno apelidado de “Twitteratura”. De acordo com o “The Guardian”, a sucursal nova-iorquina da editora Penguin está apostada em reduzir clássicos da literatura inglesa a um máximo de 20 “tweets”. O projecto é uma criação de dois jovens estudantes de Chicago – Emmett Rensin e Alex Aciman – que se disponibilizaram para adaptar ao formato 140 caracteres de cada vez clássicos universais da autoria de William Shakespeare, Stendhal e James Joyce, entre outros.
Indo beber a este conceito de micro-histórias em plataformas colectivas, mas contadas na primeira pessoa, os sites Fuck My Life e Gives Me Hope são o reverso de uma mesma medalha. Se o primeiro tem por objectivo partilhar com o mundo as histórias de erros e azares a que todos estamos sujeitos, muitas delas com humor, o segundo celebra as vitórias pessoais, com optimismo.
Traições conjugais, embaraços épicos em elevadores e transportes públicos, gaffes junto de chefes autoritários e material íntimo revelado à luz do dia: de tudo isto é feito o www.fmylife.com. Milhares de pessoas usam o site para contar, num máximo de 300 caracteres, os seus “shit moments”. Todos os “posts” começam com a palavra “hoje” e todos terminam com a sigla da frase que dá título ao site (FML). As histórias são pretensamente reais, mas torna-se evidente que há muita escrita criativa pelo meio. À semelhança do Post Secret, o FML também já tem os melhores relatos publicados em livro, cujo lançamento nos Estados Unidos ocorreu este mês, e também contempla uma secção de posts em versão ilustrada.
O Fmylife.com foi criado há cerca de ano e meio, a 13 de Janeiro de 2008, por três pessoas: Maxime Valette, Guillaume Passaglia e Didier Guedj. O site é a versão inglesa do blogue original francês VieDeMerde.fr e recebe mais de 122 milhões de visitas por mês.


