Yes we camp: as tendas continuam de pé no Rossio para dar voz a todos

26.05.2011 - 17:55 Por Romana Borja-Santos
D. Pedro IV abdicou do seu protagonismo no Rossio e cedeu grande parte da sua estátua aos cartazes de dezenas de jovens (e não só) que desde a semana passada estão aqui acampados, bem no centro de Lisboa. É um protesto semelhante ao que está a acontecer em Madrid. “Não temos milhares de euros, mas temos muita coisa para dar”, lê-se num dos cartazes. “Yes we camp”, diz outro. Pedro Murteira é um dos participantes e acredita que a mudança se faz com a população. “O importante é que cada pessoa encontre dentro de si um espaço de intervenção”, assegura ao PÚBLICO.
O dia está cinzento e a chuva em nada convida a grandes ajuntamentos ao ar livre. As pessoas passam apressadas no Rossio. Escondem-se debaixo de ombreiras. Tapam o cabelo com um saco improvisado. Compram um chapéu-de-chuva barato, de última hora. Tentam não enfiar as sandálias abertas em grandes poças. Mas, mesmo assim, não resistem a uma paragem junto à estátua de D. Pedro IV. Os que vêm equipados com uma máquina, sobretudo os turistas, tentam uma fotografia. E mais outra. É impossível não reparar nas tendas, mesas, sofás e centenas de cartazes ali colocados. Há quem critique. Os mais curiosos aproveitam para falar com os 30 ou 40 jovens que estão aqui a passar o dia e a explicar a quem quiser o que os motiva e o que os faz resistir, até ao mau tempo.
Pedro Murteira, 26 anos, é um deles. O protesto começou na passada quinta-feira e Pedro tem estado sempre aqui, tirando uma ida ou outra a casa para tomar um banho. Esclarece desde o início que fala em nome individual. Aliás, como todos que aqui estão. “Não estamos aqui por ideologias ou para convencer alguém. Para falar em nome dos outros já temos os partidos. Viemos para uma praça no centro de Lisboa precisamente para que as pessoas tragam a sua voz e para que percebam que a rua é nossa e que não serve só para irmos a caminho do trabalho”, justifica.
A assembleia popular das 19h00
Durante o dia as conversas são mais informais e limpa-se o local com vinagre, cujo odor penetra o mais fundo que pode nas vias respiratórias de quem ali está. Há tempo para uma aula de yoga ao ar livre e para uma bancada com comida para todos os que quiserem repor energias. Partilha-se sopa, arroz, fruta, leite... o que houver. Umas coisas são trazidas pelos que aqui estão concentrados. “Mas também há pessoas solidárias que nos têm oferecido coisas”, conta. O momento alto do dia acontece às 19h00 quando se juntam umas 300 pessoas. É a esta hora que se cria uma reminiscência da polis grega e é então feita uma assembleia pública onde todos são convidados a intervir, a dar ideias, a denunciar problemas actuais. Ou simplesmente a contarem a sua história, em jeito de catarse colectiva.
Pedro, estudante de Educação Social, acredita que é possível mudar o sistema político e a actual sociedade. “Não esperes pela mudança. Fá-la”, diz um cartaz. Mas Pedro condena quem critica o actual estado do país e na hora de dar o seu contributo fica em casa. Por isso, nas legislativas no próximo dia 5 de Junho vai às urnas. “Não votar é desistir. Independentemente destas acções é importante traduzirmos a nossa vontade pessoal.” Mas porque a ideia é este protesto ser um espaço livre, também foram colocados cartazes daqueles que já não acreditam no escrutínio eleitoral. “Se votar mudasse algo seria proibido”, lê-se numa das faixas. Em contraponto, outra lembra que “uma utopia é uma possibilidade que pode efectivar-se no momento em que forem removidas as circunstâncias provisórias que obstam à sua realização”.
Junto à zona da comida está Ana, 29 anos e irmã de Pedro. Apesar da licenciatura, nunca conseguiu trabalhar na sua área: Literatura. Há anos que não conhece outra coisa que um call-center. Mas até isso lhe fugiu e agora está desempregada. “Estou aqui porque acho importante discutirmos e redefinirmos a palavra democracia. O Estado deixou de ser das pessoas. Agora é uma mera entidade externa que gere a vida das pessoas mesmo contra a sua vontade”, defende, sublinhando que fala em nome próprio.

