Violência escolar caiu para metade em três anos

13.01.2010 - 07:47 Por Mariana Oliveira, Samuel Silva
As participações de actos de violência nas escolas diminuíram 45 por cento nos últimos três anos lectivos. Em 2005/2006 foram registadas perto de 11 mil ocorrências, que desceram para pouco mais de sete mil no ano lectivo seguinte e para seis mil em 2007/2008. Ainda não foram divulgados os dados relativos ao último ano, mas o director do Observatório de Segurança Escolar, João Sebastião, garante que se registou novamente uma "diminuição clara do número de ocorrências". Por isso, desvaloriza o caso do estudante do 12.º ano ferido ontem na sequência de um disparo acidental numa escola privada de Braga.
"A existência de armas de fogo nas escolas é raríssima. O mais vulgar é surgirem navalhas, mas mesmo isso são situações excepcionais", afiança João Sebastião. Os números, que não distinguem entre armas brancas e de fogo, revelam que este tipo de ocorrência representa menos de dois por cento do total de casos.
O jovem atingido continua internado, mas está livre de perigo. O autor do disparo é um colega de turma da vítima que foi ontem ouvido pela PJ, tendo asumido a autoria do disparo e sido sujeito a termo de identidade e residência. O estudante afirmou que se tratou de uma situação acidental, mas poderá vir a ser acusado de posse ilegal de arma e ofensa à integridade física negligente. De acordo com fonte policial, o disparo foi feito com uma arma transformada, que não estava totalmente carregada.
O incidente aconteceu cerca das 10h00, durante um intervalo. Os dois jovens envolvidos, ambos com 17 anos, saíram da aula de Educação Física e afastaram-se dos colegas, tendo-se dirigido para as traseiras do pavilhão desportivo do externato. Foi aí que estiveram a observar a arma, que terá sido trazida de casa pelo autor do disparo. O tiro acidental aconteceu enquanto os dois estudantes manuseavam a arma.
"Os dois alunos são amigos e fizeram um esforço por se protegerem mutuamente", afiança a directora do Externato, Maria Helena Castro. Durante a manhã, os estudantes fizeram correr a versão de que o tiro teria sido disparado do lado de fora da escola. Essa foi também a versão da vítima, num primeiro momento, quando chegou ao hospital.
O disparo terá sido efectuado com uma arma de pequeno calibre e a maioria dos estudantes nem se terá apercebido do incidente, revela a directora do externato. "Só quando vi o INEM chegar ao colégio é que percebi que havia alguma coisa de errado", confirma Ana, aluna do 10.º ano.
A vítima foi transportada para o Hospital de S. Marcos, em Braga, onde continua internada. Segundo Francisco Gonçalves, director do Serviço de Urgências daquela unidade de saúde, "o seu estado clínico é bom e estável", mas o estudante vai manter-se em observação durante as primeiras horas do dia de hoje. Segundo o mesmo responsável, o jovem apresentava uma pequena ferida na face anterior esquerda do tórax. O projéctil mantém-se alojado no corpo do rapaz, mas não está previsto que venha a ser removido. "Não se justifica a intervenção cirúrgica, já que não está em perigo nenhum órgão vital", esclarece Francisco Gonçalves.
O Externato Carvalho Araújo situa-se em Real, numa área residencial à entrada de Braga, e tem 600 alunos dos três anos do ensino secundário. É uma escola muito procurada pela classe média-alta da região, destacando-se pelos níveis elevados de aproveitamento demonstrados pelos seus alunos. A propina varia consoante o curso, mas a média mensal paga por cada estudante é de 200 euros, segundo fonte do estabelecimento de ensino. Um inquérito feito pela Deco em 204 escolas, em 2006, coloca o externato entre os estabelecimentos de ensino mais seguros do país. Entre os alunos do Carvalho Araújo, apenas 3,7 por cento diziam ter sido vítimas de situações de violência. Este número fazia desta a terceira escola mais segura, numa lista em que os piores resultados eram os da Escola de Dança do Conservatório Nacional, em Lisboa, onde 65 por cento dos estudantes reportavam ocorrências.
O director do observatório lembra que a partir de 2007/2008 foram postas em prática várias medidas para melhorar a segurança nas escolas, como a criação de um delegado de segurança em cada sede de agrupamento, com formação específica, e a introdução do módulo curricular Cidadania e Segurança aos alunos do 5.º ano.

