Ver o Papa foi para eles uma experiência "inesquecível"

08.05.2010 - 09:02 Por Paula Torres de Carvalho
Em Maio de 1982, quando o Papa João Paulo II visitou Portugal pela primeira vez, José Mário Teles tinha 19 anos. Pertencia a um grupo de jovens católicos na paróquia de Santa Engrácia e frequentava uma escola de acólitos. Coube-lhe, juntamente com muitos outros jovens, ajudar o Santo Padre na missa que deu no Parque Eduardo VII, em Lisboa. "Foi uma experiência única e inesquecível", diz hoje, na mesma igreja onde dirige um agrupamento de escuteiros.
Durante cerca de duas horas, José Mário auxiliou o Papa no cerimonial da missa, pensando que "estava a viver um sonho", recorda, a sorrir. Lembra-se de como os jovens presentes se "associaram à cerimónia com uma força impressionante", porque ele era "o Papa da juventude". E estar junto dele, diz, "foi um privilégio".
Orgulhosa, no meio da multidão, Maria de Lurdes Franco assistia. José Mário era um dos mais de cem jovens que ela formava na altura como catequista e vê-lo no altar junto ao Papa era um motivo de "grande alegria".
Naqueles dias anteriores à chegada de João Paulo II, Maria de Lurdes Franco, hoje com 79 anos, abordou com o seu grupo de jovens os temas que o Patriarcado distribuíra pelas várias paróquias. O Papa chegou no dia a seguir a uma velada e foi entoando cânticos que os jovens e a sua catequista percorreram a Rua do Duque de Loulé, em Lisboa, até chegarem ao Parque Eduardo VII para ouvir João Paulo II.
"O que mais me impressionou foi o silêncio que se fez quando o Papa começou a falar" para um público de cerca de 200 mil pessoas, conta Maria de Lurdes. "Foi um momento de grande espiritualidade... Era o representante de Cristo que ali estava. Foi uma experiência marcante para toda a minha vida."
Também António Vieira da Silva - que, nesse tempo, estava na tropa e já tinha a paixão pela fotografia - se sentiu "profundamente marcado pelo olhar e pelo sorriso do Papa". Não perdeu uma oportunidade para fotografar João Paulo II, enquanto formava o cordão de segurança entre o grupo de escuteiros a que pertencia,
No meio da multidão, Alcides Vieira, hoje director de informação da SIC, acompanhado por um operador de imagem que tentava a todo o custo proteger a câmara dos encontrões, era o repórter destacado para fazer a cobertura do acontecimento para a RTP 2. Oito anos mais tarde voltou a acompanhar o Papa, num trabalho para a SIC.
"Manifestação espantosa"
A sua reportagem foi apresentada como um modelo aos alunos de jornalismo da Universidade Nova de Lisboa. O que mais impressionou Alcides Vieira nessas visitas foi o ambiente que o rodeou em Fátima. Não tanto pela proximidade entre as pessoas, mas sobretudo por "não se notarem grandes diferenças sociais entre os fiéis". O Santuário, diz, "funciona como uma concha, uma mão aberta que acolhe e une pessoas, sem distinção". Fátima "é talvez o melhor retrato psico-sociológico do país", considera o director da SIC. "Em cada pessoa, em cada ritual, há uma grande história e para o jornalista a dificuldade não é encontrar boas histórias", mas "talvez não se deixar envolver para conseguir manter a distância".
Muitos anos antes, um outro Papa, Paulo VI, também visitou Portugal. Estava-se em 1967. Uma visita que o padre Victor Feytor Pinto recorda ainda com "muita emoção". "Foi uma surpresa, ninguém contava", mas, mesmo assim, "muitas centenas de milhares de pessoas" deslocaram-se a Fátima para vê-lo. Feytor Pinto participou nessa "manifestação espantosa de todas as culturas" como sacerdote peregrino. Foi uma visita "delicada", já que existia então um contencioso entre o Estado português e o Papa, que pouco antes tomara uma posição de defesa dos líderes dos movimentos de libertação africanos que combatiam contra Portugal na guerra colonial. Por isso mesmo, a deslocação de Paulo VI a Portugal não foi uma visita de Estado, não tendo passado sequer por Lisboa.

