O padre italiano Ruggero Conti, de 56 anos, foi preso por prostituição de menores e violência sexual sobre sete jovens. O processo está em investigação, e estão a aparecer várias vítimas. Mas o caso foi protegido e encoberto pelas mais altas autoridades do Vaticano, revelou o jornal espanhol “El País".
O actual Papa Bento XVI foi acusado pessoalmente esta semana nas páginas do "New York Times" de ter permitido, enquanto era cardeal de Munique, que o sacerdote pedófilo alemão Petter Hullermann exercesse, apesar de estar até em tratamento psiquiátrico por abusar sexualmente de crianças.
Agora, o jornal espanhol diz que a Santa Sé não respondeu a um relatório que em 2007 lhe foi entregue com testemunhos de pessoas que aos 12 e aos 13 anos haviam sido abusadas pelo padre Conti.
“A hierarquia eclesiástica conhecia os factos desde há anos. Levámos o nosso relatório a quatro dirigentes da Santa Sé e à Conferência Episcopal Italiana (CEI); e ninguém fez nada”, disse a organização não governamental (ONG) italiana contra a pedofilia La Caramella Buona, presidida por Roberto Mirabile. A justiça civil está a processar o padre, enquanto a hierarquia católica não agiu.
O cardeal Angelo Comastri, arcipreste de São Pedro e vigário-geral do Papa, foi uma das figuras a quem Mirabile disse ter apresentado provas de que Conti obrigou os menores a sexo oral e a masturbações, no oratório, em sua casa e em acampamentos de Verão.
Por fim, o promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, Charles J. Scicluna, negou-se a abrir um inquérito, alegando que nos seus arquivos não havia nada contra o padre Conti. Interrogado pelo correspondente de “El País” em Roma, Miguel Mora, Scicluna respondeu que quando o caso foi apresentado pela ONG ainda nenhuma queixa de abusos lhe fora feita pelos superiores hierárquicos do sacerdote.
Depois de ter deparado com tamanhas dificuldades por parte da Igreja Católica, a ONG dirigiu-se aos carabineiros e à justiça penal. Conti foi detido em Junho de 2008, e acabou acusado de prostituição de menores e de abusos sexuais, em 40 episódios cometidos a partir de 1998.
Aos menores, com dificuldades económicas o sacerdote dava entre dez e 30 euros, e às vezes roupa, em troca das práticas sexuais, contou Mirabile, segundo o qual durante as próximas semanas deverão surgir muitos mais grupos de queixosos. Começaram já a surgir notícias deste género nas cidades de Bolzano e Verona, bem como na Lombardia e na Toscânia.
O caso do Wisconsin
Enquanto isto, no outro lado do Atlântico, “The New York Times” revela hoje novos pormenores de um caso em que, durante décadas, um grupo de homens sexualmente abusados enquanto crianças pelo reverendo Lawrence C. Murphy, numa escola para surdos no estado de Wisconsin, se queixou em vão a toda a espécie de entidades.
Falaram a outros padres. Falaram a três arcebispos de Milwaukee. Falaram a dois departamentos da polícia e ao delegado do Procurador-Geral. Usaram linguagem gestual, escreveram, fizeram desenhos, a demonstrar exactamente o que é que o padre Murphy lhes fizera; e nada.
Esta semana vieram finalmente a saber que o cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, recebera em 1996 cartas de um daqueles arcebispos de Milwaukee, Rembert G. Weakland, a alertar para que a comunidade de surdos necessitava de “uma resposta da Igreja”.
Uma das vítimas, Steven Geier, hoje com 59 anos, contou agora ao “The New York Times” que “o padre Murphy pensava constantemente em sexo com crianças; e conseguiu-o”.
Um dos aspectos mais reveladores do que se verificou no Wisconsin é que as jovens vítimas começaram a alertar as autoridades em meados da década de 1950, quando os abusos sexuais ainda mal faziam parte do vocabulário público.
A defesa do Papa
“Ele é o primeiro que já desde os seus tempos de cardeal sente a necessidade de regras novas, mais severas, que antes não existiam”, disse hoje ao jornal italiano “Corriere della Sera” o cardeal alemão Walter Kasper, de 77 anos, saindo em defesa de Bento XVI.


