Vacinação contra a gripe A começa hoje para 54 mil portugueses

26.10.2009 - 08:10 Por Romana Borja-Santos
As cinco mil doses iniciais da vacina conta a gripe A (H1N1) devem ser administradas hoje em Portugal. E esse ritmo vai manter-se nas próximas duas semanas até terminarem as 54 mil doses atribuídas ao primeiro grupo de risco- população com funções consideradas essenciais ao país. O PÚBLICo foi ouvir três cidadãos abrangido pelo plano de urgência (uma operadora dos CTT, um técnico do INEM e uma jovem diabética) e conta as suas expectativas.
Arregaçar as mangas, sentir o cheiro do álcool impregnado no algodão a limpar o braço e, por fim, virar a cara para o lado quando a agulha trespassa a pele e o líquido começa a fazer pressão. Um procedimento que já estava longe da memória de Débora e de Pedro, para quem o Plano Nacional de Vacinação só prevê um reforço da vacina do tétano de dez em dez anos. Já Ana Margarida faz uma romaria anual ao centro de saúde para levar a vacina da gripe sazonal. Hoje arranca a campanha de vacinação da gripe A. Débora, Pedro e Ana são três exemplos dos que vão dar o primeiro passo para não entrar nas estatísticas da pandemia. Nas próximas duas semanas, serão administradas 54 mil doses aos primeiros grupos de risco, a uma média de cerca de cinco mil por dia.
Débora Ribeiro tem 28 anos e é operacional do centro de recepção de correio dos CTT no aeroporto de Lisboa. Pedro Tubal, 29 anos, é técnico de ambulância e emergência no Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). Ana Margarida Pereira ainda tem 16 anos e estuda, mas tem diabetes. O que têm então em comum? A primeira trabalha numa área considerada indispensável ao normal funcionamento da sociedade, o segundo é um profissional da saúde insubstituível e a terceira tem uma doença crónica. Três argumentos distintos que os juntam naquilo a que a Direcção-Geral da Saúde apelidou como grupo de risco A, onde se inserem os primeiros 360.000 portugueses que vão ser vacinados contra a nova estirpe do vírus H1N1 [ver infografia na página 5].
Contudo, dada a primeira entrega da farmacêutica ter sido de 54.000 doses e as próximas chegarem dentro de duas semanas, este grupo foi ainda mais restringido. Débora e Pedro continuam na linha da frente, a par com os órgãos de soberania. Ana vai ter de dar lugar às grávidas com doenças crónicas associadas. São 10.000 e, neste momento, é nelas que está centrada a principal preocupação das autoridades de saúde. Nesta lista inicial houve que ser selectivo. No caso dos diabéticos, por exemplo, seria impossível incluí-los a todos, uma vez que se estima que sejam cerca de 900 mil.
Por agora, segundo explicou ao PÚBLICO a subdirectora-geral da Saúde, está tudo a postos para a campanha arrancar com os meios que o Serviço Nacional de Saúde tem para o Plano de Vacinação. Isto é, em circunstâncias normais, os centros de saúde e hospitais têm capacidade para dar 300.000 doses em apenas 15 dias. Se, entretanto, a GlaxoSmithKline aumentar o ritmo e o volume das entregas "traça-se um novo plano e alargam-se os horários, dias de funcionamento e profissionais. Mas, por agora, não é necessário", assegurou Graça Freitas, à margem de uma sessão de esclarecimento no Ministério da Saúde.
E, até ao fim de 2009, também não deverá ser. "Contamos administrar, até ao final do ano, um milhão de doses de vacinas", acrescentou o director-geral da Saúde, Francisco George. O que corresponde a cerca de 500.000 pessoas, já que de momento a indicação da autoridade europeia do medicamento é que são necessárias duas doses para a inoculação ser eficaz, dadas com um espaço de três semanas. "Se vier a indicação que uma é suficiente, vacina-se mais gente", explicou George, assegurando que nesta primeira fase as pessoas mais debilitadas vão ser todas vacinadas, pelo que não há nada a recear.
Contudo, há 2,5 milhões de pessoas (entre elas as crianças até aos 12 anos) que o mais provável é que sejam apenas vacinadas a partir de Janeiro, depois da época de frio - a mais apetecível para o vírus. "Mas o pico da gripe não é iminente", salvaguardou o director-geral da Saúde, que, apesar de não gostar de falar de cenários - "em matéria de gripe, não há bola de cristal" - diz que os números mais negros, como os 650.000 casos na pior semana, estão postos de lado, em grande parte pela prevenção feita. Ainda assim, e apesar de o vírus não ser um grande killer, prefere não minimizar o seu impacto. Em Portugal perderam-se até agora três vidas.

