Na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (UC), hoje de manhã o calendário ainda marcava 23 de Novembro. Faltou alguém para virar a folha para 24, dia de greve geral em que, naquele edifício situado na alta universitária, se registou uma adesão de 40 por cento. À porta, um papel afixado avisa os frequentadores do espaço dos constrangimentos: a biblioteca estará encerrada durante a hora do almoço e, ao fim do dia, em vez de fechar as portas às 22h00, fá-lo-á às 17h30. Além disso, não é possível fazer requisições de livros para levar para casa.
“Está tudo a funcionar, mas com o horário reduzido. E também não temos empréstimos domiciliários por insuficiente número de pessoas nos depósitos. Eu sou a favor da greve, estou cá a trabalhar porque tem que ser. E não acho justo pedir a quem vem trabalhar que faça mais do que o costume”, diz o director-adjunto da biblioteca, Maia Amaral, à porta do edifício.
Por voltas das 10h00, ainda há muitos lugares livres para se estacionar no pólo I da universidade – coisa rara. Também as pessoas que passam naquela alameda – à excepção dos turistas – são menos. Houve estudantes não apareceram nas faculdades, embora grande parte dos professores tivesse ido dar as aulas. Alguns em protesto contra a situação do país, como o docente de Direito Constitucional, João Loureiro, que levou duas t-shirts com frases estampadas como “restaurar a democracia, acabar com a partidocracia”.
“Vim dar as aulas normalmente, não quero que haja confusão com a minha atitude. Mas não posso concordar com esta vergonha. Eu até defendo os cortes, pode é não ser nestes moldes…Se viesse sem nada, podia ser confundido como concordante com o estado das coisas”, diz o docente.
Na escadaria da Faculdade de Letras da UC, um grupo de alunos de Estudos Artísticos apanha os ainda tímidos raios de sol da manhã. Estão a fazer uma pausa: “Tivemos aulas normalmente. Acho que os professores não estão a faltar”, diz Diogo Pinto, de 19 anos, acrescentando, porém, que estão menos alunos nas salas.
Os corredores das Letras estão mais desertos do que o habitual, embora, de uma forma geral, os serviços estejam a funcionar. Foi o vigilante Valdemar Madeira, funcionário de uma empresa subsidiária que trabalha para UC, quem abriu a porta de manhã.
O director da Faculdade de Letras, Carlos André, garante que, entre os 80 funcionários não docentes da faculdade de letras, a adesão ficou-se pelos 36 por cento - apenas no gabinete que se dedica às questões informáticas é que aderiram todos os trabalhadores. “Agora, os serviços académicos, o gabinete de apoio ao director, que é por onde entra e sai todo o correio, isso está a funcionar”, acrescenta. Quanto ao bar, à limpeza, ao serviço de fotocópias e à livraria - serviços que funcionam em regime de concessão, não incluem funcionários da UC – também não se fizeram notar grandes efeitos.
Na Faculdade de Letras há, porém, algumas salas de leituras encerradas, entre as quais a de História da Arte, por exemplo. “Mas os professores têm a chave de acesso”, ressalva o director. Quanto aos docentes, não há, para já, números definitivos. Em 200, apenas cinco entregaram uma carta a comunicar que estão em greve, mas o director sabe que o número será superior. Ainda assim, Carlos André reconhece que “a faculdade está muito morta”, até porque muitos alunos faltaram, por suspeitarem que poderia não haver aulas.
Não foi o caso de Mariana Mendes, de 19 anos: “Só tinha uma aula de três horas, mas o professor não faltou”, diz a aluna de Direito, sentada numa paragem de autocarro. “O meu pai trouxe-me de manhã, mas, como vi o 103 a passar, estou à espera…”, acrescenta.
A hora de almoço aproxima-se e é precisamente nas cantinas, que são geridas pelos Serviços de Acção Social da UC, que mais se sentem os efeitos da greve. A maior parte delas está fechada: a do Pólo II, as Cantinas Amarelas, as Azuis, a Sereia… A funcionar, só há duas: a das Químicas e a do Pólo III.


