Governo não contabiliza o tempo que os doentes esperam por radioterapia e quimioterapia.
Os doentes com cancro são operados em períodos cada vez mais curtos mas ainda há um quinto (cerca de 700 pessoas) que só tem acesso à cirurgia ultrapassados tempos considerados clinicamente aceitáveis, que nesta área podem ir até um mês. Por contabilizar continua a espera do doente até chegar à cirurgia e no acesso a tratamentos de radioterapia e quimioterapia.
Quando se fala de tempos de espera em cirurgia, os balanços do Governo têm tido quase sempre o mesmo registo. Nos últimos cinco anos, as melhorias são assinaláveis, mas há "um caminho a percorrer", disse ontem o secretário de Estado adjunto e da Saúde, Manuel Pizarro, na conferência de imprensa onde foram apresentados os indicadores da área da Oncologia.
Pela primeira vez, no ano passado, a mediana do tempo de espera para cirurgia oncológica ficou abaixo de um mês (em 28 dias), tendo a lista de inscritos descido de 4094 para 3515 e as operações realizadas subido de 39.517 para 40.833. A mediana é um indicador estatístico diferente da média e que divide a amostra ao meio, ou seja, diz-nos que metade dos inscritos foi operada em menos de 28 dias e outra metade num período superior. Na área do cancro, os tempos clinicamente aceitáveis variam entre três dias, para situações muito urgentes, 15 dias - o período mais frequente -, até um máximo de um mês. Em 2005, a mediana de tempo de espera era de 79 dias, valor que vem descendo e que no ano passado se situava nos 36 dias.
Novos equipamentos
O governante atribuiu a melhoria de resultados a uma maior rentabilização dos blocos operatórios, embora admita que, por vezes, haja outros constrangimentos. O exemplo dado foi o do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, onde "a capacidade dos cuidados intensivos é um factor limitante na actividade cirúrgica", desconhecendo-se ainda se sempre vai ser construída uma nova unidade. As cirurgias no sector privado que mantém convenções com o Estado atingiram este ano o seu valor máximo (483, face a 189 no ano passado) mas ainda assim são residuais, representando cerca de um por cento das cirurgias em cancro, sublinhou Pizarro.
As melhorias nos tempos até à cirurgia deixam de fora outra parte do problema. O secretário de Estado admitiu que não existe ainda forma de medir o tempo que os doentes levam até à indicação para cirurgia e no período pós-cirúrgico, no caso dos tratamentos de quimioterapia e radioterapia, algo que se espera venha a ser possível em 2011.
No ano passado, um estudo da Coordenação Nacional para as Doenças Oncológicas revelou grandes lacunas ao nível da radioterapia - sendo que entre 50 e 60 por cento dos doentes com cancro têm indicação para fazê-la - e alertava para a necessidade de duplicar os aparelhos existentes. O relatório previa a dotação, até 2020, com 64 unidades de radioterapia externas (há 35 aceleradores lineares).
Pizarro notou que no IPO do Porto haverá cinco aparelhos substituídos e dois novos, no Hospital de Santa Maria está a decorrer um concurso para reequipamento, e passará a haver radioterapia nos hospitais de Santarém e Viseu (São Teotónio), não tendo especificado datas.
O presidente do colégio da especialidade de Oncologia da Ordem dos Médicos, Jorge Espírito Santo, aplaudiu os bons resultados mas notou que o ideal seria que "não houvesse nenhum doente oncológico em lista de espera para cirurgia, radioterapia ou quimioterapia". "Nós não podemos ver a terapêutica como apenas uma das modalidades", adiantou à agência Lusa. E acrescentou: "Tudo o que fica a jusante da cirurgia tem de ser garantido, sob pena de nós melhorarmos uma coisa e criarmos constrangimentos noutras". O sistema, disse, "ainda não está devidamente organizado".


