Típico imigrante em Portugal nem sempre trabalhou no sector da restauração e hotelaria

20.05.2010 - 07:27 Por Cláudia Sobral
Brasileiros a viver em Portugal são cada vez mais e já representam um quarto dos estrangeiros em território nacional, segundo os dados provisórios do SEF.
Que ocupação tem o comum dos imigrantes brasileiros? Trabalha na área da restauração ou da hotelaria, pensará qualquer um. Outras vezes no sector comércio - o estereótipo está criado. Os estudos publicados sobre a comunidade em Portugal confirmam-no mas nem sempre foi assim. O padrão é hoje muito diferente do de há 20 anos.
"Se comparamos o perfil profissional dos brasileiros recenseados em 1991 com o dos de 2001, deparamo-nos com um grande contraste", afirma João Peixoto, investigador do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e co-autor de um estudo sobre imigração brasileira e o mercado de trabalho português. "A maior parte ocupava profissões de topo, ao contrário daquilo que se passava em 2001." E, adianta, tudo indica que os dados dos Censos de 2011 venham a revelar uma realidade "ainda mais distante" da de 1991.
"Na primeira vaga de imigração brasileira, nos anos 80 e 90, entrava muito pouca gente - e a maioria ia para bons trabalhos", afirma João Peixoto, que já publicou vários trabalhos sobre esta comunidade imigrante. Nessa época, muitos vieram para trabalhar nas áreas do marketing ou da engenharia informática. "Alguns foram mesmo escolhidos a dedo pelas nossas empresas", recorda. "Hoje entram muitos. Mas para maus trabalhos."
Em 1986, havia 7470 brasileiros a viver em Portugal (8,6 por cento do total de estrangeiros). Em 2008, os últimos dados disponibilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) apontam para 106.961. Significa isto que um em cada quatro estrangeiros que vivem em Portugal é brasileiro. Um inquérito recente revela que a idade média dos brasileiros é de 32,4 anos. O perfil do imigrante brasileiro mudou. Mas mais à chegada do que à partida. Cada vez chega mais gente de classe média-baixa e a classe média-alta vai-se tornando mais rara.
Emprego menos qualificado
Vanilda Sousa, de 29 anos, em Portugal há nove, trabalhou um ano em casa de uma senhora idosa (os trabalhos domésticos são outra área que emprega muitos brasileiros). Cuidava dela, fazia-lhe companhia e uns recados. Ao fim desse tempo já tinha encontrado um emprego que encaixava na sua área de formação: técnica de enfermagem. O curso profissional que tirou no Brasil permitiu-lhe arranjar emprego como tripulante de ambulância, numa empresa que prestava serviços a vários hospitais. Mas os horários deixaram de ser compatíveis com a sua vida pessoal e por isso despediu-se. Hoje, trabalha a servir num restaurante de comida rápida.
Vanilda admite que a maioria dos brasileiros tem "muita dificuldade" em conseguir trabalhar na área em que se formou.
O nível médio de formação deles é superior ao dos portugueses. Quem o diz é a investigadora do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), Beatriz Padilla, socióloga e politóloga.
João Peixoto salienta que há um desajustamento cada vez maior entre o nível de formação destes imigrantes e o tipo de emprego que conseguem. "Trinta por cento trabalham nas áreas da restauração e da hotelaria. E muitos deles são demasiado qualificados para aquilo que fazem", avança.

