Testemunha no processo da Casa Pia sequestrado na mala de um carro 
10.08.2005 - 08:46 Por José Bento Amaro, com Ricardo Dias Felner/PÚBLICO
Um jovem de 19 anos, alegada vítima no processo Casa Pia, e que ainda não depôs em julgamento, foi encontrado ontem de manhã no Feijó, Seixal, com ferimentos e escoriações diversas. Estava desaparecido desde a noite de sexta-feira. Esta foi a segunda vez, no espaço de quatro meses, que foi alvo de violência.
Ontem, ao fim da tarde, o rapaz ainda se encontrava no Hospital Garcia da Orta, em Almada, para onde foi transportado pela PSP, que acorreu ao chamamento de uma mulher que o descobriu, junto a uma valeta, na Rua Maria Judite de Carvalho, no Feijó.
No momento em que foi encontrado, o rapaz estava "muito combalido e fraco", segundo fontes dos bombeiros. A mulher que o descobriu terá dito à PSP que das primeira coisas que o rapaz lhe confidenciou foi que havia sido raptado e que era uma das vítimas da Casa Pia.
De acordo com fonte policial, o jovem terá contado que esteve dois dias fechado no porta-bagagens de um automóvel. Esta versão coincide com uma primeira análise dos serviços hospitalares, que apontam como explicação para algumas sequelas a "paralisação de longa duração" dos membros. Aparentava ainda sintomas de desidratação.
Segundo os serviços de urgência geral do hospital, o jovem foi sujeito a diversos exames e análises, sendo previsível que pudesse abandonar o serviço de observações até final do dia de ontem. As suas roupas foram, entretanto, encaminhadas para o Laboratório de Polícia Científica, no edifício da directoria de Lisboa Polícia Judiciária.
O PÚBLICO apurou que o jovem, que reside com uma tia na zona de Cascais, terá saído de casa na noite de sexta-feira, levando apenas a carteira e os óculos, tendo afirmado ao partir que regressaria mais tarde.
No entanto, o antigo aluno da Casa Pia - que estudou no Colégio de Santa Catarina e esteve sob protecção da instituição até atingir a maioridade, segundo esclareceu a provedora, Catalina Pestana- acabou por não regressar nessa noite, nem tão-pouco no sábado ou no domingo. Na segunda-feira os familiares, temendo que algo de grave tivesse ocorrido, avisaram a PSP e também a Polícia Judiciária de Lisboa.
Catalina Pestana afirmou ao PÚBLICO ter tomado conhecimento do desaparecimento do jovem na segunda-feira, depois de avisada pelos seus familiares. Ontem à tarde, segundo adiantou, não conhecia outros pormenores do caso, uma vez que não tivera hipótese de se deslocar ao hospital.
O jovem já teria sido alvo de outras agressões e molestações sexuais há cerca de quatro meses. Esses alegados crimes terão sido participados e estão a ser investigados. No entanto, a alegada vítima não se encontrava sob vigilância policial, como acontece com outras testemunhas do processo Casa Pia.
A segurança de pessoas consideradas em risco pode ser requerida pelos próprios, ou ordenada pelos tribunais ou mesmo pelos órgãos de polícia. No caso deste jovem, tal nunca havia sido considerado necessário.
As agressões de que terá sido alvo desta vez, tal como nas anteriores, não levam, para já, a Polícia Judiciária (que está a investigar esta ocorrência através da Direcção Central de Combate ao Banditismo [DCCB]) a afirmar que se esteja em presença de uma manobra de intimidação deliberada.
Os investigadores da DCCB terão, entretanto, recolhido os primeiros depoimentos da alegada vítima, que lhes descreveu todos os passos dados desde que, na noite de sexta-feira, saiu de casa da tia. Apesar de várias diligência, não foi possível apurar quantas pessoas o terão sequestrado, nem tão-pouco saber se eram ou não conhecidas do ex-casapiano e em que tipo de carro e local o terão mantido durante os dois dias em que terá estado fechado.
Fonte policial adiantou ainda desconhecer a data em que o jovem poderá ser chamado ao Tribunal de Santa Clara, em Lisboa, para depor. Não foram, igualmente, revelados os nomes dos arguidos no processo que a vítima poderá vir a mencionar.
Ontem ao fim da tarde, o jovem já teria recebido no Hospital Garcia da Orta a visita da sua advogada, bem como de um técnico da Casa Pia, que lhe levou roupas. Segundo disse ao PÚBLICO Catalina Pestana, a instituição, mesmo não tendo o jovem a seu cargo há já cerca de dois anos, procura assegurar assistência a todos os seus alunos, e sobretudo quando estes possam ter sido alvo de abusos ocorridos enquanto se encontravam nos seus colégios.
O processo Casa Pia, desencadeado no início de 2002, tem sete arguidos constituídos; um deles, um antigo funcionário da instituição e o único que já reconheceu a autoria de grande parte das acusações que lhe são dirigidas, ainda se encontra em prisão preventiva.

