Terminou interrogatório a Vara, mas medidas de coacção só para a semana

27.11.2009 - 21:27 Por Aníbal Rodrigues
O interrogatório de cerca de oito horas ao vice-presidente do BCP com funções auto-suspensas, Armando Vara, no âmbito do processo Face Oculta terminou à meia-noite, no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Aveiro, sem que o arguido tivesse ficado a conhecer as medidas de coacção a que ficará sujeito. Algo que o juiz de instrução criminal deverá divulgar na próxima semana.
À saída do DIAP, cerca das 0h30 de hoje, Armando Vara voltou a clamar inocência e referiu que “há qualquer coisa de inventado” na matéria com que foi confrontado. Questionado pelos jornalistas, o arguido explicou que o seu relacionamento com o principal arguido deste processo, o empresário Manuel Godinho, foi apenas profissional. “Era um relacionamento bancário, que tinha ver com a sua relação com a Caixa Geral de Depósitos e, numa segunda fase, com a intenção de ganhar um bocadinho também para o Milleniumbcp.”
Armando Vara disse que, por ano, tem centenas de almoços e jantares com variadas pessoas. Por outro lado, também não negou o seu papel como facilitador de diálogos. “Eu colocar pessoas a falar com outras como fiz com o engenheiro Paiva Nunes [vogal da administração da EDP Imobiliária], a quem pedi para ver se estava alguma coisa a correr mal, faz parte da minha vida. Eu fiz ao longo da minha vida centenas de telefonemas, senão milhares, com pedidos desses.”
Já quanto ao que possa ter recebido da parte de Manuel Godinho, Armando Vara nega qualquer quantia em dinheiro, mas admite a recepção de uma caixa de robalos e de um equipamento desportivo para o filho. “Quando ele se deslocou a Vinhais ofereceu-me uma caixa de robalos.” “E também um equipamento”, acrescentou, perante a insistência dos jornalistas. Porém, o antigo ministro da Administração Interna nega qualquer tipo de favorecimento às empresas de Manuel Godinho. “Eu nunca tive nenhum tipo de atitude que favorecesse as empresas de Manuel Godinho. Ele era cliente do banco onde eu trabalhava, eu tinha uma relação profissional com ele e mais nada.”
Antes de ter abandonado de vez o DIAP aveirense, Armando Vara teve cerca de duas para jantar e, nessa altura, transmitiu alguma satisfação pelo modo como o interrogatório estava a decorrer. “Estou muito satisfeito com a forma como me correu o dia”, respondeu quando questionado pelos jornalistas. “Acredito que há condições para que este pesadelo não se mantenha, pelo menos nas condições em que tem estado”, acrescentou. “Não pedi dinheiro a ninguém, não recebi dinheiro de ninguém, tudo é inventado”, reiterou também, tal como havia feito quando entrou para o DIAP. “Estou satisfeito com as respostas que dei, creio que foram objectivas e concisas”, avaliou Armando Vara, antes de se dirigir para o jantar, acompanhado da sua dupla de advogados.
O antigo ministro da Administração Interna no governo de António Guterres começou a ser inquirido DIAP de Aveiro, pouco passava das 14h00. Chegou acompanhado dos seus advogados, Nuno Godinho de Matos e Tiago Rodrigues Bastos e manifestou, à entrada do DIAP, que esperava que o “pesadelo” termine rapidamente. Se possível ainda ontem. “A minha expectativa é que este pesadelo, que tenho vivido eu, os meus filhos, os meus pais, os meus amigos, termine hoje [ontem]”, afirmou.
O arguido no processo Face Oculta tem a certeza que acabará por ser declarado inocente. “Estou inocente e não tenho a menor dúvida que isso se provará. Se não for agora, será em tribunal, porque fazem uma acusação que não tem a correspondente prova [que terá recebido 10.000 euros da parte do empresário de sucatas Manuel Godinho].”
Esta foi a segunda vez que Armando Vara foi inquirido a propósito do processo Face Oculta, no DIAP de Aveiro, depois de no passado dia 18, ter consultado o processo e prestado já algumas declarações. “Estou tão tranquilo hoje [ontem] como estava da primeira vez. Disse que era mentira a acusação de receber dinheiro. Repito: é mentira. Espero falar sobre isso hoje [ontem]”, afirmou.
Já quanto questionado pelos jornalistas acerca de polémica da gravação de escutas de conversas entre si e o primeiro-ministro, José Sócrates, Armando Vara não quis revelar o teor desses diálogos, declarando apenas: “São conversas privadas e como tal devem manter-se.”

