Surto de febre hemorrágica em Angola será o mais grave de sempre

29.03.2005 - 08:40 Por Joana Ferreira da Costa, Sofia Rodrigues, PÚBLICO
O número de mortos da febre hemorrágica provocada pelo vírus de Marburgo continuava ontem a subir em Angola: o último balanço oficial apontava para 122 vítimas, a última das quais um bebé de um ano. Parece inevitável que este se torne o maior surto desta doença infecciosa desde a sua descoberta em 1967.
A criança morreu na noite de domingo, poucas horas depois da mãe de 19 anos, na cidade do Uíje, o epicentro da doença no Norte de Angola. A morte de famílias inteiras é paradigmática da forma como o vírus de Marburgo se tem disseminado naquela cidade. "Este tem sido o padrão: as crianças morrem primeiro e os pais a seguir ou vice-versa, devido ao estreito contacto entre si", explica o porta-voz do Ministério da Saúde angolano, Carlos Alberto.
O vírus de Marburgo - que se propaga através de fluidos corporais como o suor, sangue, saliva, vomitado ou esperma - estava até há poucos dias circunscrito à cidade do Uíje, na província com o mesmo nome, tendo chegado entretanto à capital, Luanda, onde há sete pessoas infectadas, duas das quais já morreram, e também à província de Cabinda, onde foi referenciada uma vítima mortal.
A situação é "gravíssima" com o número de vítimas mortais a subir para 122, estando o surto na iminência de se tornar o mais grave de sempre, ultrapassando os 123 mortos registados na República Democrática do Congo, entre 1998 e 2000.
Autoridades optimistas sobre controlo da doença
Para travar a progressão do vírus, as autoridades da província do Uíje, em colaboração com organizações internacionais, estavam ontem a equipar os profissionais de saúde com fatos de protecção, a instalar laboratórios para permitir fazer análises de confirmação da doença e a sensibilizar a população para os riscos de contágio.
"A partir de agora vai ser mais fácil controlar a epidemia", defendeu ao PÚBLICO a porta-voz da comissão técnica de acompanhamento da doença do Ministério da Saúde angolano, Filomena Wilson.
Equipas da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos Médicos sem Fronteiras (de Espanha) estavam ontem a trabalhar na organização logística e na área clínica para combater a doença. Uma das necessidades identificadas é a de dotar médicos e enfermeiros com equipamento de protecção para lidar com os suspeitos de infecção, já que estes profissionais de saúde foram as primeiras vítimas do vírus.
"Já recebemos algum material, mas precisamos de mais luvas, máscaras, botas e batas porque os meios de protecção só podem ser usados uma vez", afirmou Filomena Wilson.
A necessidade da cooperação internacional foi ontem sublinhada pelo director de Saúde da província de Luanda, Vita Mvemba, que denunciou a falta de médicos no país. "Nem todos os médicos estão disponíveis para participar na luta contra o vírus de Marburgo. Muitos deles recusam-se a colaborar devido às más condições de trabalho, nomeadamente aos salários baixos", declarou Vita Mvemba, citado pela AFP.
Outra das contribuições dadas pelos membros da Organização Mundial de Saúde é a instalação de um laboratório no hospital de Uíje que permitirá fazer as análises para identificar o vírus de Marburgo. Até agora, esse exame era feito num laboratório em Atlanta, nos Estados Unidos.
Muitos doentes recorrem a curandeiros
O esforço de combate à epidemia passa também por sensibilizar a população para os perigos do contágio. "Estamos a fazer um treino em massa e a fazer cumprir as medidas de higiene", assegurou Fátima Wilson. Esta especialista admitiu, no entanto, que "não é fácil convencer a população a encaminhar os doentes para o hospital".
Segundo o porta-voz do Ministério da Saúde angolano, Carlos Alberto, "muitos doentes morrem à porta do hospital porque recorrem aos curandeiros e só vão para o hospital quando a doença se agrava".
Em alguns casos, as famílias ficam com o corpo do doente em casa, o que acaba por facilitar a propagação do vírus.
À luz da tradição local, é comum os parentes abraçarem o cadáver, exemplifica o bispo do Uíje, D. Francisco da Mata Mourisca, empenhado no esforço de esclarecimento da população.

