Software capaz de prever ataques cardíacos vence Prémio BES Inovação

23.11.2009 - 17:00 Por Maria João Lopes
Prever com 24 horas de antecedência a ocorrência de um ataque cardíaco num paciente internado numa unidade de cuidados intensivos ou prever uma fraude bancária são apenas algumas das aplicações de um sistema desenvolvido pelos investigadores Pedro Bizarro e Diogo Guerra que ganhou o prémio BES Inovação.
Nos últimos dois anos, os investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, Pedro Bizarro, 35 anos, e Diogo Guerra, 23, andaram a estudar a hipótese de criarem um sistema capaz de prever uma série de situações, seja num banco ou num hospital. E conseguiram: desenvolveram um protótipo que processa informação em tempo real, cruzando-a com a histórica, para prever o futuro. A tecnologia poderá vir a ser aplicada na saúde, permitindo prever, por exemplo, com 24 horas de antecedência, a possibilidade de um paciente internado nos cuidados intensivos ter um ataque cardíaco. A invenção valeu-lhes este ano o Grande Prémio Nacional do Prémio BES Inovação, que vai na sua quinta edição, tendo ainda arrecadado uma distinção na categoria de Tecnologias de Informação e Serviços, o que somado dá 85 mil euros.
Nos cuidados intensivos, explica Pedro Bizarro, “os pacientes estão ligados a monitores, que estão a vigiar em tempo real o batimento cardíaco, a pulsação, a temperatura e outros parâmetros”. Posteriormente, o sistema recolhe essa informação, analisa também aquela que chega sem ser em tempo real - análises ao sangue, à urina – e recolhe ainda dados históricos desse paciente e de outros com situações semelhantes (com a mesma doença, idade ou sexo): “Depois, em tempo real e à medida que a informação vai chegando, vai disparando uma série de regras e fazendo um conjunto de análises estatísticas que, em determinadas situações, indica que um paciente terá uma grande hipótese de ter um ataque cardíaco nas próximas 24 horas”, afirma, acrescentando que é “inovador” este cruzamento entre o “processamento em tempo real” e o “histórico”, para se fazer uma “previsão do futuro”.
Evitar falsos alarmes
Por outro lado, o sistema fornece alertas clínicos personalizados por doença, por idade e por paciente, entre outras variáveis, e está dotado de sistemas inteligentes que reduzem os falsos alarmes, o que não acontece com o equipamento disponível no mercado. “Os actuais sistemas de monitorização não reúnem informação em tempo real e a configuração de regras é muito escassa, gerando um elevado número de falsos alarmes". E dá um exemplo: "Se o doente se mexe bruscamente, é gerado um alarme, que acaba por ser ignorado".
Talvez por isso, alarmes reais acabam por vezes por ser também ignorados. "Milhares de pacientes internados nos cuidados intensivos sofrem enfartes agudos do miocárdio, apesar de estarem ligados a sistemas de monitorização contínua”, nota o investigador de engenharia informática, explicando que este sistema pode colmatar essas falhas.
“Uma das lacunas é que a análise estatística era feita a posteriori”, avança o docente: “Ninguém estava a analisar em tempo real se aquele paciente tinha ou não possibilidade de ter um ataque cardíaco. Uns dias ou meses depois alguém analisava os dados e dizia: ‘realmente este paciente é parecido com o que tivemos há seis meses e podíamos ter visto isto na altura’. Como não era feito em tempo real, os médicos e enfermeiros não podiam fazer nada, porque não sabiam”, conta.
O sistema agora criado é também muito flexível: “As regras podem ser adaptadas ao tipo de paciente, se é homem, se é mulher, se é idoso, se é jovem, se é uma criança, qual é o problema que tem, se é cardíaco, respiratório, ou outro”, enumera o docente, adiantando que se prevê que daqui a um e ano e meio o projecto esteja comercializado.
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