O primeiro-ministro garantiu que o Governo está disponível para negociar com os enfermeiros, que hoje cumprem o terceiro dia de greve, e acusou o PCP de colocar o interesse de uma classe à frente do interesse nacional.
Durante o debate quinzenal na Assembleia da República, o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, apelou a José Sócrates para que ouça os protestos dos enfermeiros e saia da postura "arrogante e distante", que disse ser usual no primeiro-ministro.
Sócrates garantiu que o Governo está a aguardar pelo fim dos protestos dos enfermeiros para regressar "rapidamente à mesa negocial", apelando ao bom-senso da classe, e criticou que "haja partidos sempre disponíveis para aproveitar todas as lutas corporativas".
O chefe de Governo criticou os partidos que "colocam de lado o interesse geral para dar imediatamente razão a qualquer interesse particular" e recusou negociar com partidos questões que dizem respeito a classes profissionais. "Nunca nos passou pela cabeça que os partidos tivessem neste Parlamento posição igual à dos sindicatos", destacou José Sócrates, afirmando que o Executivo terá "boa-fé negocial" para alcançar "um equilíbrio que sirva a sociedade portuguesa, mas que não faça ajoelhar o interesse geral diante de nenhum interesse corporativo".
Na resposta, Jerónimo de Sousa pediu ao primeiro-ministro para que não estranhe "a solidariedade do PCP em relação às injustiças de que são vítimas os trabalhadores", mas considerou estranho que "este Partido Socialista nunca é capaz de demonstrar solidariedade para com uma luta" de qualquer classe.
Num debate centrado na proposta do Orçamento do Estado (OE) para 2010, Jerónimo de Sousa afirmou que o Governo já escolheu "o alvo mais fácil" para pagar o défice: "Os salários, os postos de trabalho, os cortes no PIDDAC, a cativação em relação ao investimento".
Sobre o congelamento dos salários da Função Pública, José Sócrates lembrou que este sector teve aumentos reais de 3,7 por cento no ano passado, e que, por isso, este ano os trabalhadores "compreenderão que em 2009 e 2010, o aumento real andará à volta dos 2,9, 3 por cento", mas Jerónimo de Sousa referiu que os funcionários públicos perderam entre quatro a sete por cento dos salários na última década.
O secretário-geral do PCP condenou o acordo entre o Executivo e a direita para viabilizar o OE, considerando que este compromisso "salvou a política de direita, porque o interesse nacional tem as costas largas", nomeadamente ao propor privatizações do "bife do lombo" - a ANA, REN e TAP. "Este Governo fez um opção. Está do lado dos mais poderosos e não do lado de quem trabalha", sublinhou o líder comunista.
José Sócrates respondeu criticando o Partido Comunista por nunca ter votado a favor ou com abstenção qualquer Orçamento de Estado em 30 anos. "Nunca houve um orçamento bom? Querem convencer os portugueses que a posição do PC de ter estado sempre contra é uma posição razoável e credível? Acham que a única possibilidade de estar de acordo com um orçamento foi no tempo do primeiro-ministro Vasco Gonçalves?", perguntou José Sócrates, que acusou ainda os comunistas de elegerem sempre o PS como inimigo, quando está no Governo.


