"Snake era clean, clean, 100 por cento clean", dizem amigos

18.03.2010 - 14:13 Por Ana Dias Cordeiro
A princípio eram poucas dezenas de pessoas e nada fazia prever a dimensão que viria a ter a cerimónia. Mas pouco demorou para que, esta quinta-feira, a Igreja de Santa Clara de Chelas e todo o espaço em volta se enchesse para a missa em memória de Nuno Miguel Rodrigues (Snake), morto por um agente da PSP na madrugada de segunda-feira.
Quando o cortejo fúnebre chegou ao cemitério do Alto de São João, centenas de pessoas já se tinham juntado à homenagem. Muitas vestiam t-shirts ou camisolas com fotografias de Snake, gravadas na frente, nas costas.
Baixinho, ouviram-se palavras de revolta, mas tudo se passou na calma, como pedira a família. Na missa, também o padre, Frei Fabrizio Bordin dissera: “Não podemos ficar calados. E o silêncio poderá falar mais alto do que as balas das armas.” No fim, notou a forma digna e solidária como tudo se passou, mostrando uma realidade que contrasta com a imagem negativa que a maioria das pessoas tem dos bairros, disse ao PÚBLICO.
Pessoas de todas as idades, jovens dos subúrbios de todo o país, vieram para este último adeus a Snake. Vieram amigos e conhecidos do Porto ao Algarve, mas também de Londres. De Angola, veio Laton Kalibrado (João Paulo Cordeiro), do grupo de hip-hop angolano Kalibrados.
Este músico de 25 anos lembra-se de ouvir Snake dizer algo especial: “Conta comigo, irmão.” Por isso, “estivesse onde estivesse no planeta”, viria a Lisboa para uma última despedida ao amigo. Veio pela sua amizade, pela “sua personalidade”. Conheceram-se em 2006 e desde então Snake levara-o do Porto ao Algarve, a conhecer os amigos que tinha nos subúrbios mais estigmatizados. “Por onde passava unia as pessoas, do Norte ao Sul, de dentro e de fora do país”, diz com admiração. “Levou-me a todos esses sítios, por querer juntar as pessoas de bem, por ser pacífico.”
Os dois amigos conheceram-se não através da música, onde Snake dava os primeiros passos, mas ”na noite”. “Snake era um boémio assumido, gostava da boa vida, do tempo de qualidade. Era carismático e atencioso. Era uma pessoa regrada à sua maneira, sempre tranquilo, clean, clean, 100 por cento clean. Nada de drogas, nada de álcool, mas sempre, isso sim, um sorriso na cara.”
Flores por entregar
No mar de gente, que se acumula, algumas pessoas com flores não conseguem chegar ao caixão, e só no fim, mais de uma hora depois, depositam os ramos que trazem nas mãos. Cada ritual da despedida da mãe, da namorada e dos três irmãos se prolonga, adia o fim. E as muitas pessoas presentes, amigos e conhecidos, esperam em silêncio apenas interrompido por palmas e prantos.
“Obrigado a todos!” exclama em lágrimas o irmão mais velho de Snake, Jorge Rodrigues. Mais palmas. Com a mesma comoção com que o carro funerário foi recebido à chegada ao cemitério, no único momento próximo do que pode ter sido a expressão de uma raiva contida: as motos que acompanhavam o carro, paradas, aceleram a fundo, fazendo um barulho estrondoso e arrancando palmas e lágrimas.
Algumas mulheres e jovens, rapazes e raparigas choram em silêncio. “Eu não acredito...eu não acredito. Ele era bonzinho, já está no céu”, ouve-se uma senhora dizer. Para pouco depois, já com o caixão fechado, outra a chorar por não ter dado um último beijinho a Nuno. “Eu queria dar-lhe um beijinho...Ele era o meu menino.”
O padre, Frei Fabrizio Bordin recebeu muitas mensagens de pessoas que nem conheciam Snake e que lhe disseram que “é muito triste quando alguém morre assim”. “Nuno Miguel tinha encontrado a felicidade nos amigos, na intimidade da família, na filha, na namorada e na música, através da qual expressava a vontade de viver e também a dificuldade do dia-a-dia dos nossos bairros”, disse o padre durante a missa, dando voz ao sentimento geral: “Este é um momento de muita dor, de muitas dúvidas e de muita revolta também.”
Notícia substituída ás 17h27

