A ideia de que a sida "já pode ser tratada" tende a suscitar "abrandamentos na prevenção" da doença, alertou hoje, em Coimbra, o médico Meliço-Silvestre, ex-responsável da Unidade de Missão da Luta Contra a Sida.
Meliço-Silvestre, director do Departamento de Doenças Infecciosas dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), falava no congresso "Cidades, Saúde e Segurança 2008", que termina quarta-feira.
A propósito dos riscos de propagação do vírus da sida (VIH) entre os toxicodependentes, Meliço-Silvestre admitiu que o consumo de drogas pela via endovenosa diminuiu nos últimos anos, o que poderá ser benéfico para o combate à doença.
No entanto, disse recear que o consumo de novas drogas, pela via oral, "leve depois a uma actividade sexual mais liberta de constrangimentos", ou seja, sem uso de preservativo, o que acaba por potenciar os riscos de contaminação.
Com as actuais tendências do mundo das drogas, optando os consumidores mais por substâncias como anfetaminas ou ecstasy, "pode acontecer" que as pessoas "aligeirem a prevenção no final de uma noite na discoteca" e noutros espaços de diversão nocturna.
Por outro lado, o catedrático de Medicina dsa Universidade de Coimbra disse que "há hoje medicamentos comprados na Net que são pura falsificação", não produzindo os efeitos que são publicitados quanto ao tratamento da sida.
Em Portugal, segundo o orador, nas unidades de saúde públicas vocacionadas para o combate a esta doença, era hábito os seus responsáveis "não recusarem tratar" imigrantes dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP), mesmo estando em situação irregular.
"Eles vinham dos PALOP quase de propósito. Mas isso começa-se a saber e os governos começam a ficar nervosos", disse o médico dos HUC, lembrando que têm aumentado as "restrições económicas" nos serviços públicos, incluindo na saúde.
Em 2006, registaram-se em Portugal seis novos casos de infecção pelo VIH por dia, segundo Meliço-Silvestre.
Trinta e dois mil portugueses "vivem com a infecção" actualmente.
"Portugal é o quarto país da Europa Ocidental com novos casos de VIH, a seguir ao Reino Unido, França e Alemanha", sublinhou.
Revelou que, em unidades públicas, como a de Doenças Infecciosas dos HUC, "há sobretudo doentes que não seguiram os tratamento, que se desinteressaram completamente da vida".
"As tais cidades saudáveis acabam por criar também guetos, onde as doenças têm uma dinâmica própria", observou o ex-chefe da Unidade de Missão da Luta Contra a Sida.


