A perícia à personalidade do ex-militar da GNR acusado da morte de três jovens, em Santa Comba Dão, revelou um indivíduo com fortes distúrbios psicológicos, o que poderá estar na origem do crime.
A nível intrapsíquico, dizem os técnicos do Instituto de Reinserção Social, António Costa revela dificuldades no campo emocional e de organização da agressividade. Dá também mostras de frieza afectiva, a par da obsessão que é marcada pelos problemas de origem psicossocial. O que lhe gera, então, receios vários, que o obrigam a atingir níveis de satisfação compensatórios.
Acrescentam depois os especialistas que é em torno deste trinómio - insensibilidade, fortes impulsos sexuais e elevada auto-estima - que se estruturou a personalidade do ex-militar da GNR. Uma personalidade disfuncional que, sublinham, pode desencadear reacções violentas, quando é posto em causa o projecto de imagem que o visado arquitectou de si próprio.
É neste quadro de violência latente que as autoridades acreditam terem sido cometidos os três crimes. Sempre em momentos de rejeição sexual e depois de as jovens ameaçarem que fariam queixa do ex-militar à GNR, por aquele tentar de alguma forma manter contactos sexuais com elas.
A acusação deduzida pelo Ministério Público (MP) de Coimbra (por três crimes de homicídio, três de ocultação de cadáver, um de profanação, dois de coacção sexual e outro de denúncia caluniosa) dá ainda conta de que António Costa era um homem bem inserido na sociedade, dando mostras de grande participação cívica. O que o obrigaria, na opinião dos especialistas, a manter elevados níveis de conduta e a rejeitar qualquer possibilidade de aqueles serem beliscados.
O que levou o ex-militar a cometer os crimes a partir de determinado momento da sua vida - quando já tinha mais de 50 anos - continua a ser uma incógnita. Mesmo assim, os peritos admitem que a sua saída da GNR pode ter aligeirado as obrigações para com a sociedade, levando-o a assumir comportamentos violentos.
Rituais semelhantes nos três casos
Outra característica detectada neste indivíduo e que leva o MP a atribuir-lhe a qualificação de serial killer foram os rituais que parecem envolver os crimes. As situações são muito idênticas em termos de pormenores, o que o transforma num homem obsessivo e dado a mórbidas rotinas.
No primeiro caso, e baseando-se nas declarações do arguido, as autoridades admitem que tenha havido relações sexuais, enquanto nos seguintes apenas terá havido o pedido de "um beijo" às vítimas. Cristina, a primeira jovem, terá ameaçado o indivíduo que apresentaria queixa contra ele por violação, o que o terá levado a asfixiá-la. Quando pensou que estava morta, António Costa, ainda segundo a acusação pública, lançou o corpo de uma falésia da Figueira da Foz, depois de o embrulhar em sacos de ração.
Nos dois casos seguintes, o suspeito terá também abordado as vítimas (Mariana e Joana) no caminho entre a casa e a escola. Pediu-lhes que o acompanhassem até um barracão, nas imediações da sua casa, o que ambas terão feito, convencidas de que o suspeito não ofereceria qualquer perigo. As razões que depois apresentou para as matar foram idênticas. Ambas não aceitaram dar-lhe um beijo e manifestaram repulsa pelo seu corpo. Descontrolado, António Costa terá asfixiado as jovens e depois lançado os seus cadáveres à água, também envoltos em sacos de ração, de uma barragem nas imediações. Nos dois casos, terá escolhido aquele local por pensar que dificilmente os corpos seriam resgatados, evitando assim o que acontecera com Cristina: no dia seguinte à sua morte, o corpo dera à costa.
Ainda segundo o PÚBLICO apurou, nas três situações António Costa desfez-se dos bens pessoais das vítimas através do fogo, usando uma pequena lata onde provocou os incêndios. O ex-militar apenas terá guardado uma caneta de Isabel, que não lhe foi apreendida.


