Septuagenárias americanas condenadas a prisão perpétua por homicídio de dois sem-abrigo

17.07.2008 - 10:03 Por Susana Almeida Ribeiro
Helen Golay tem 77 anos e Olga Rutterschmidt 75. As duas sonhavam com uma reforma dourada mas um juiz de Los Angeles apresentou-lhes outro destino: prisão perpétua. As duas mulheres foram condenadas por homicídio de dois sem-abrigo com o objectivo de "herdarem" o dinheiro dos seguros de vida.
As duas vítimas – Paul Vados, de 73 anos e Kenneth McDavid, de 50 – foram acolhidos pelas mulheres, que lhes deram tecto, comida e segurança durante pelo menos dois anos. Ao que parece, durante esse tempo as septuagenárias forneceram-lhes igualmente vários seguros de vida em cujas apólices figuravam como beneficiárias. O desfecho só podia ser um. Paul Vados foi morto em 1999 e Kenneth McDavid em 2005. O modus operandi foi o mesmo. Atropelamento e fuga, consumado em vielas escuras. O objectivo era fazer com que parecesse um acidente.
As mulheres foram apanhadas em Maio de 2006, depois de dois investigadores da polícia terem, por acaso, comentado os casos que estavam a investigar, descobrindo que eles eram bizarramente parecidos.
Quando o plano foi desmontado já as duas amigas tinham conseguido perto de três milhões de dólares com os seguros de vida entretanto reclamados.
“Eles precisavam de uma mão amiga. E achavam que era isso que vocês lhes estavam a dar. E afinal aqueles desgraçados homens foram sacrificados no vosso altar da ganância”, disse o juiz do Supremo Tribunal de Justiça de Los Angeles, David Wesley, antes de confirmar, na terça-feira, as sentenças de prisão perpétua por homicídio qualificado sem possibilidade de saírem em liberdade condicional. O magistrado indicou que as septuagenárias não poderão sair porque foi considerado que elas “não têm consciência e são uma ameaça séria para a comunidade”.
O juiz Wesley estimou ainda que a ganância das mulheres foi o ponto de viragem no caso que parece extraído de um enredo noir forjado em Hollywood.
Durante o julgamento foi apresentado um vídeo gravado secretamente após a detenção das duas mulheres e no qual Rutterschmidt acusava Golay de ser a responsável pelas suas detenções por ter sido “gananciosa”. “A culpa é tua. Não devias ter feito tantos seguros. Foste gananciosa. Esse foi o problema”.
Reagindo em tribunal ao caso e à atitude das mulheres no vídeo, Sandra Salman, irmã de Kenneth McDavid, lamentou o quão baixo desceram as idosas, autoras de um crime em que a vida humana fica ao mesmo nível que o lucro pessoal. “Estas mulheres mataram pelo menos dois homens e a única coisa que lamentam é terem sido apanhadas”, disse.
Não ficou provado durante o julgamento quem terá sido a autora moral dos crimes porque a estratégia da defesa das arguidas foi a acusação mútua.
Com a morte de Paul Vados, em 1999, as septuagenárias conseguiram cerca de 600 mil dólares em prémios de seguros. As autoridades começaram a suspeitar do caso quando, em 2005, as mesmas duas mulheres reclamaram o corpo de McDavid – que apresentava ferimentos no tronco semelhantes aos que tinham vitimado Vados - e lucraram 2,2 milhões de dólares. As mulheres estavam igualmente a travar batalhas jurídicas para receberem mais dinheiro de mais seguradoras que se estavam a recusar pagar à data das suas detenções. Ao que parece, os homens chegaram a ter em seu nome mais de duas dezenas de planos de seguros.
De acordo com o “LA Times”, as autoridades acabaram por encontrar vestígios do ADN de McDavid numa carrinha usada por Helen Golay, uma nativa do Texas. Olga Rutterschmidt era uma imigrante húngara que, antes de ficar viúva, tinha um café com o marido. Quando se conheceram, na década de 1970, Golay e Rutterschmidt descobriram que tinham o interesse comum de gostarem de “vigarizar pessoas”, indicam os autos judiciais. Ambas eram obcecadas com fraudes e Rutterschmidt conservava, depois da morte do marido, uma assinatura dele numa espécie de carimbo de borracha que usava para depositar cheques e votar.

