Reportagem: Terceiro segredo? Pedofilia? "O Santo Padre não perde tempo com essas coisas"

13.05.2010 - 07:56 Por Paulo Moura
Pelos corredores do Santuário, padres, teólogos e "vaticanistas" torturam-se com teorias sobre o Terceiro Segredo. Alheio a tudo isso, o povo apenas quer ver o Papa.
Está frio e uma nuvem negra anda de um lado para o outro no céu. Helicópteros sobrevoam também o santuário e as ruas de Fátima. Quando passam, as pessoas acenam-lhes, não se percebe se porque têm uma especial propensão para venerar tudo o que surge no céu, se porque têm esperança que seja o Papa. É certo que ele vai chegar a qualquer momento, e toda a gente o quer ver. Colocam-se em pontos estratégicos, e esperam, em banquinhos que trouxeram de casa.
"Uma vez, durante a guerra, um violador entra num convento de freiras..." Uma senhora gorda, a fazer horas durante a espera, conta anedotas. "...arrependido, o violador ia reconsiderar, mas a freira velha disse: "Não, não, guerra é guerra!"" As amigas rebolam-se a rir. "Boa! Guerra é guerra!".
As ruas estão cheias. As pessoas fazem compras, enquanto não chega a atracção principal. "Evasão - Artigos religiosos". Tentam comer qualquer coisa. "Retiro do Anjo - Restaurante". Toda a cidade se assemelha a uma estância termal. Há uma actividade única, de cariz curativo, em torno da qual tudo circula. Restaurantes, lojas, postos médicos são apenas um apoio às laborações religiosas.
Agora é mesmo o Papa, num helicóptero militar, camuflado. "A Santo Padre acaba de chegar", anunciam nos altifalantes do Santuário. Pouco depois passa o papamóvel. Os que o esperavam levantam-se para aplaudir.
Depois de umas palavras na Capelinha das Aparições, o Papa dirige-se à Igreja da Santíssima Trindade, onde 8 mil padres, seminaristas, frades e freiras, conselheiros pastorais já estão sentados para a oração de Vésperas. O Papa entra e todos se levantam, exaltados, atirando-se ao corredor central. Freiras idosas e circunspectas trepam para as cadeiras, para verem melhor. "Se ao menos a sombra de Pedro me tocasse..." diz-se nos Actos dos Apóstolos. É essa a razão do frenesim. A própria sombra do herdeiro de Pedro tem poderes curativos.
Atrás do Papa seguem em fila os fotógrafos "vaticanistas". Os redactores "vaticanistas" já estão sentados, a cochichar teorias. Corre entre eles que o Papa se prepara para adiantar revelações sobre o Terceiro Segredo de Fátima. A pedofilia era a parte que faltava. Se o segredo já tinha anunciado que João Paulo II seria vítima de um atentado, anuncia agora a vitimação deste Papa, não às mãos de um agressor externo, mas dos pecados da própria Igreja. É uma teoria. Outra é que vai ser anunciada a beatificação de João Paulo II. Os mais contidos acham apenas que haverá uma mensagem contra o secularismo.
Começa a oração. O órgão, a orquestra e o coro entram em acção. É trazida a custódia com a hóstia que representa Cristo, e um banquinho genuflexório para o Papa. Ele ajoelha-se em adoração, enquanto os milhares de pessoas entoam o cântico que o anjo de Portugal ensinou aos pastorinhos: "Peço-vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam".
"Vaticanistas", seminaristas e teólogos fazem interpretações: naquele cântico já se anunciava todo o secularismo do século XX. No ecrã vídeo ao lado do altar, o realizador encontrou um plano em que se vê a custódia e o Papa sentado, com um ar triste. Vê-se a custódia feita de prata dourada, ouro, esmaltes polícromos e pedras preciosas absolutamente fixa, e, ao lado e em segundo plano, o peito do Papa, enfeitado com um grande botão de ouro, o pluvial, a avançar e a recuar, com a sua respiração cansada.
A seguir, Bento XVI ainda tem no programa a procissão das velas. Milhares enchem o santuário, velas acesas nas mãos. "Acho que o Santo Padre quis dizer que é importante não perder a fé", diz Deolinda Ferreira, 65 anos, de Santarém, enrolada numa manta. Terceiro segredo? Pedofilia? "Não. O Santo Padre não perde tempo com essas coisas". Joaquim Costa, 42 anos, blusão e calças de cabedal, de motoqueiro, acrescenta: "Os políticos portugueses deviam ser como ele. Dizer a verdade, não enganar as pessoas".

