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Náufragos a salvo

Reportagem nas Caxinas: 57 horas de muita reza e algum desespero

04.12.2011 - 19:56 Por Ana Cristina Pereira

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Náufragos rezaram com o terço de Fernando Maravalhas Náufragos rezaram com o terço de Fernando Maravalhas (Foto: Adriano Miranda)
Seis homens à deriva, a uns 20 quilómetros da costa, numa balsa com quadro metros de diâmetro. "Estava tanto frio, tanto frio", encolhe-se Manuel Oliveira, mais conhecido por Navegante, agora sentado no sofá da sua casa. Chuva. Vento. Pior na noite de quinta para sexta. "Era muito mar, muito mar..."

Saíram de Vila do Conde às dez da noite de domingo. Segunda-feira, atracaram na Figueira da Foz. Tinham capturado linguado e algum peixe miúdo. Era preciso ir à lota despachar aquilo. Tornaram a entrar no mar. O mar estava sereno. Quarta-feira ficaria revolto. O mestre da embarcação Virgem do Sameiro, José Manuel Coentrão, quis aproveitar o bom tempo.

Na terça-feira à noite, estavam as redes lançadas, Coentrão ordenou aos homens que descansassem um pouco. Por ora, ficaria ele de vigia. Quando foi lá abaixo chamar Navegante para o substituir naquela tarefa, a água já lhe chegava aos joelhos. Arrancou os cinco homens ao sono, depressa, depressa: "Acordai! Acordai!"

Não havia qualquer hipótese. "O motor ainda estava a trabalhar, mas a bomba já não escoava", recorda Navegante.

Ninguém sabe - ou quer explicar - muito bem o que aconteceu. Prudenciano Pereira acha que foi um plástico que se meteu na bomba.

Nem vestiram coletes. Só tiveram tempo de saltar para dentro da balsa, que fora instalada havia 15 dias. O mestre ainda atirou um edredão. Lá dentro, apenas meio litro de água por pessoa, alguns comprimidos. Incrédulos, ficaram a olhar o barco, que não tardou a inclinar-se e a ser tragado pelas águas.

Prudenciano ainda tem aquela imagem, nítida, na cabeça. "Estávamos todos a chorar. Até eu estava a chorar!"

A partir daquele momento, foram 57 horas de desnorte, com o terço de Fernando Maravalhas sempre a servir para contar alguma ave-maria ou algum pai-nosso. Pediam a Nossa Senhora de Fátima que os salvasse. Por eles passaram algumas embarcações. Em vão gastaram os quatro fachos de mão que havia na balsa.

Andavam de Norte para Sul, de Sul para Norte, como uma casca de noz. Iam colados uns aos outros para evitar que a temperatura dos seus corpos caísse abaixo dos 35°C. Por mais do que uma vez, o mestre deitou-se em cima de dois dos seus homens. Com esta atitude, tentava aquecê-los, mas também sossegá-los. Fernando Maravalhas entrara em pânico.

O homem, de 44 anos, delirava. Navegante nunca vira nada assim: "Ele gritava que queria ir para o barco, que aquele não era o barco dele. Tirou o casaco. Pôs-se em tronco nu. Nós estávamos cheios de frio. Ele dizia que tinha muito calor. Arranhava a balsa. Parecia louco, não sei... Andava por cima de nós e tudo. Ele, às vezes, queria fazer a vida dele - urinar, não é? Olhe, o mestre teve de o obrigar a ficar direito."

O mestre deu-lhe dois socos. Prudenciano, conhecido pelo seu invejável sentido de humor, amarrou-lhe os pés e as mãos. Não fazia piadas, como é seu costume. Também estava a desesperar. Ao ouvi-lo, ontem, a mulher acrescentava motivos: "Faltava o cigarrinho e o copinho de vinho." A Maravalhas mais do que a qualquer outro. "O que íamos fazer? Atirá-lo para o mar? Não."

"No último dia já não tinha força", admite. Lembra-se de pensar uma e outra vez: "É a nossa morte!" Essa ideia pareceu-lhe certa quando viu Maravalhas puxar as fitas retro-reflectoras que havia na balsa.

Em Vila do Conde e na Póvoa de Varzim, desesperavam os familiares. A mãe de Maravalhas, Maria do Carmo Fangueiro Novo, já se cobrira de luto.

Quarta-feira, fora almoçar a casa da filha, Aurora, a Balazar, freguesia da Póvoa de Varzim. O telefone tocara. Era uma irmã: "Morreram todos!" Maria do Carmo lançou um grito lancinante. O marido não. O marido foi pescador a vida inteira, e algo, o mar, o céu, a conjugação de ambos, dizia-lhe que o filho estava vivo.

A mulher foi a gritar até casa, na Rua da Praia, nas Caxinas, terra de quase toda a tripulação: "Ai! Morreu o meu filho! Já não tenho quatro filhos. Agora, já só tenho três filhos." Os vizinhos começaram a aparecer. Era como se a fé, que a faz ir a pé a Fátima há 20 anos, se tivesse evaporado: "Já não vou mais a Fátima, a minha alegria acabou."

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