A amostra ainda é pequena mas um balanço sobre a taxa de repetições de abortos na Maternidade de Alfredo da Costa, em Lisboa, dá conta de cerca de três por cento de mulheres que repetiram Interrupções Voluntárias da Gravidez (IVG) desde que a lei entrou em vigor, em Julho de 2007.
Esta maternidade, a unidade pública que mais faz abortos no país, realizou 2156 IVG pela primeira vez e 62 repetições, com um intervalo médio de 11 meses. Uma das autoras do estudo, a médica interna Ana Figueiredo, diz que "a taxa de repetição é inferior a países como Estados Unidos, onde é de 48 por cento, e Suécia, onde é de 40 por cento, que despenalizaram o aborto há mais de 30 anos". O mesmo é verdade para a França e a Finlândia.
A médica nota que o número tenderá a aumentar em Portugal pelo facto de aumentarem os números de IVG. Ana Campos, directora do Serviço de Obstetrícia, diz que "a taxa de repetição é baixíssima" e "os números são encorajadores".
Dada a escassez da amostra, não foi ainda possível tirar conclusões sobre estas mulheres. Mas o estudo, apresentado ontem no II Encontro de Reflexão sobre a Interrupção da Gravidez por Opção da Mulher, dava conta de factores de risco identificados em estudos internacionais. É mais provável que uma mulher que repete abortos não seja casada, tenha baixo nível socioeconómico, história de abusos sexuais e/ou físicos ou de dependência de álcool ou drogas. As mulheres que mais reincidem saem da consulta com métodos como a pílula, "que dependem mais do uso da mulher", do que com contraceptivos de longo prazo, como é o caso do dispositivo intra-uterino.
No encontro foram também apresentados dados de outras unidades. No Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, em Portimão, o obstetra Fernando Guerreiro considerou preocupante o número de mulheres que faz IVG e sai da consulta "não aceitando qualquer contraceptivo, dizendo que ainda vão pensar": estão nesta situação 52,4 por cento das mulheres, tendo ali sido realizados 1098 abortos desde que a lei entrou em vigor.
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