Quinta da Fonte: governadora civil de Lisboa diz que vai ser dado "tempo às partes para se acalmarem"

14.07.2008 - 20:11 Por Lusa
A governadora civil de Lisboa, Dalila Araújo, afirmou hoje que será dado "tempo às partes para se acalmarem" para que a "tranquilidade" regresse o mais breve possível ao bairro da Quinta da Fonte, em Loures, onde na sexta-feira meia centena de indivíduos de dois grupos se envolveram em tiroteios.
Dalila Araújo esteve reunida no Governo Civil de Lisboa com representantes da comunidade cigana e da comunidade africana para debater a situação da Quinta da Fonte e a celebração do Contrato Local de Segurança, instrumento que prevê o reforço da segurança comunitária e policiamento de proximidade. "Temos um objectivo comum que é promover a paz e fazer com que a tranquilidade regresse ao bairro", afirmou a governadora civil.
A governadora civil afirmou que as associações da comunidade africana "querem receber [as famílias ciganas] desde que haja respeito mútuo" e que estes representantes lhe transmitiram a mensagem de que "não vão procurar o que os afasta, mas o que os une". "Estas reuniões vão continuar e espero que no curto prazo nos possamos reunir em conjunto", disse Dalila Araújo.
António Pinto Nunes, da Federação das Associações Ciganas de Portugal, assegurou que "as pessoas ciganas não têm agressividade" e acusou "pessoas de cor" entre os 16 e os 19 anos de serem os responsáveis pelos confrontos no bairro da Quinta da Fonte. "Vive-se um clima de terror. De há quatro ou cinco anos para cá que as casas e carros dos ciganos são assaltados", afirmou António Pinto Nunes.
Fernanda Reis, presidente do Secretariado Diocesano de Lisboa da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos, qualificou o Contrato Local de Segurança de "muito interessante", tendo recebido garantias de que será posto em prática no próximo Outono. A responsável considerou "fundamental" a ocupação dos jovens e adiantou que a situação no bairro é de "grande instabilidade". "Os ciganos sentem-se sós, sentem-se com medo, sentem insegurança", realçou.
Representantes das associações da comunidade africana da Quinta da Fonte, garantiram, por sua vez, que "o bairro está sempre de portas abertas" para o regresso das famílias de etnia cigana. "O bairro está sempre de portas abertas. O bairro não é nosso, é de todos", afirmou Paulino Zola, representante do programa Escolhas, à saída da reunião no Governo Civil de Lisboa.
"Se soubéssemos o que falhou não estávamos aqui. Agora é preciso trabalhar passo a passo para que a situação se resolva. É um caminho longo", continuou Paulino Zola.
O presidente do Agrupamento Escolar da Apelação, Félix Bolaños, decidiu afastar o espectro de uma rivalidade entre etnias, sublinhando que "há bons e maus" dentro de todas as comunidades e etnias. "Isto foi um grupo identificado de 20 pessoas que decidiram transgredir a lei e andar aos tiros" e que terão tido "o azar de serem filmados", explicou Félix Bolaños.
O Governo Civil de Lisboa já tinha previsto começar a trabalhar nos Contratos Locais de Segurança em Sintra e Loures, primeiros concelhos do distrito com este instrumento, mas devido aos acontecimentos na semana passada na Quinta da Fonte a primeira reunião com a sociedade civil daquele bairro foi antecipada para hoje.
Além da Quinta da Fonte, os bairros do concelho de Loures que também vão ser contemplados com Contratos Locais de Segurança são a Torre, Quinta do Mocho, Quinta da Serra e Urmeiras. O primeiro local a avançar com este tipo de contrato, previsto na Estratégia de Segurança para 2008 do Ministério da Administração Interna, foi o bairro do Cerco, no Porto.
Na sexta-feira à tarde, meia centena de indivíduos de dois grupos da Quinta da Fonte envolveram-se em confrontos com utilização de armas de fogo, segundo a PSP, que indicou ter detido dois indivíduos e apreendido algumas armas de fogo e munições de calibre variado.
No dia anterior, uma rixa entre dois grupos de do mesmo bairro tinha provocado nove feridos ligeiros e danos em várias viaturas.
O bairro da Quinta da Fonte, na freguesia da Apelação, concelho de Loures, foi edificado para acolher desalojados pela construção dos acessos viários à Expo 98 e tem actualmente 2500 habitantes.

