Quercus pede à Valormed para deixar de queimar resíduos de embalagens e medicamentos

28.10.2008 - 11:32 Por Helena Geraldes
As embalagens e medicamentos fora de uso recolhidos nas farmácias por todo o país estão a ser queimados em Lisboa, Porto e Madeira. Mas a Quercus lembra hoje que a sua reciclagem não só é possível como obrigatória por lei. O Ministério do Ambiente já notificou a entidade gestora responsável, a Valormed.
Pedro Carteiro, do Centro de Informação de Resíduos da Quercus, explicou ao PÚBLICO que existem em Portugal operadores licenciados para fazer a triagem e reciclagem de mais de 50 por cento desses resíduos. Apenas devem ser incinerados os poucos que não puderem ser reciclados, como os comprimidos e resíduos colocados por engano no sistema da Valormed.
No ano passado, a Valormed recolheu 638 toneladas de resíduos. “Estes materiais são tão bons ou melhores do que aqueles que colocamos nos ecopontos. São papel, da posologia, cartão, vidro e plástico”, diz Pedro Carteiro.
Mas esta não é uma ideia da Quercus. Na verdade, a licença da Valormed obriga-a a reciclar até 31 de Dezembro de 2011 pelo menos 55 por cento dos resíduos de embalagem. Mas até hoje, nada vai para reciclagem.
De acordo com a licença, a Valormed deverá reciclar até 31 de Dezembro de 2011 entre 55 e 80 por cento dos resíduos recolhidos, mais especificamente pelo menos 60 por cento de vidro e papel, pelo menos 50 por cento de metais, 22,5 por cento de plásticos e 15 por cento de madeira.
Assim, este ano esta entidade gestora deveria ter reciclado 1529 toneladas de papel/cartão; 256 toneladas de plásticos; 2104 toneladas de vidro e 130 toneladas de metais.
“Em termos de custos, o processo [de reciclagem] representaria apenas cerca de cinco por cento do orçamento anual da Valormed”, diz a Quercus em comunicado.
“A indústria está preparada para receber este tipo de resíduos; a novidade aqui é que terá de ser feita a triagem, ou seja, desmontar as caixas dos medicamentos” e separar os vários materiais, acrescentou o ambientalista.
“Queremos salientar que muitas das pessoas que entregam os resíduos de embalagens nas farmácias podem até nem saber que estes estão a ser queimados”, comentou Pedro Carteiro. A incineração de resíduos tem um custo “muito elevado” em termos de emissões de poluentes para a atmosfera, lembra. “Se fossem reciclados, teríamos um balanço positivo em termos energéticos”.
O ambientalista sublinhou também que a indústria farmacêutica, que paga uma taxa à Valormed para fazer a correcta gestão dos seus resíduos, não tem interesse em saber o que acontece realmente a esses resíduos. A indústria “devia exigir saber o que acontece no fim”.
Ministério do Ambiente já notificou a Valormed
A Quercus já alertou o Ministério do Ambiente para o caso de incumprimento da licença. O assessor de imprensa do ministério da Rua do Século confirmou ao PÚBLICO que a Agência Portuguesa do Ambiente já notificou a Valormed mas ainda não há uma data prevista para a tomada de uma decisão.
“No limite, a licença atribuída por despacho conjunto dos ministros da Economia e do Ambiente pode ser caçada. Mas isso é uma situação extrema, pois ainda esperamos que se resolva", disse a sub-directora da APA, Luísa Pinheiro à agência Lusa.
O PÚBLICO contactou a Valormed mas não foi possível obter esclarecimentos em tempo útil.
A Valormed - Sociedade Gestora de Resíduos de Embalagens e Medicamentos foi constituída em 1999.

