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População estranha riqueza do pároco

Quem tramou o "padre pistoleiro"?

28.10.2009 - 08:53 Por Andrea Cunha Freitas

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Uma das igrejas de Covas do Barroso, a aldeia onde Fernando Guerra é padre há três décadas. Uma das igrejas de Covas do Barroso, a aldeia onde Fernando Guerra é padre há três décadas. (Adriano Miranda (arquivo))
Foi detido a seguir à missa, ainda na sacristia, no domingo da manhã em Covas do Barroso, uma aldeia no meio dos montes de Boticas, distrito de Vila Real. Foi assim que a história do padre Fernando Guerra transpirou. Mas, antes de sair nos jornais, já muitos conheciam o sacerdote e suspeitavam dos seus alegados negócios de compra e venda de pistolas e outras armas. Dizem que foi assim que fez fortuna. Que não soube parar quando tinha os bolsos já cheios, quatro ou cinco carros na garagem e várias casas espalhadas. Que, cometendo o pecado mortal da ganância, o "padre pistoleiro acabou por ser tramado".

Com 74 anos e há três décadas na mesma paróquia, vai aguardar julgamento em casa, com termo de identidade e residência, proibido de comprar e usar armas. O sorriso de domingo foi apagado pelo cansaço de segunda-feira à noite, após um longo interrogatório no tribunal. Ontem regressou ao trabalho e rezou uma missa encomendada.

Mas regressemos a domingo. A missa começou às sete com muita chuva cá fora e pouca gente dentro da igreja na freguesia com 300 habitantes, um terço dos quais tem mais de 70 anos. Aos outros as vindimas roubam tempo e a outros ainda a troca das horas baralhou os relógios. A proprietária do café Palifrão foi a primeira a sair. "Ainda estavam a cantar, quando saí para ir abrir o café. Mas nem vi jipes, nem nada, como contam. Vi dois ou três homens à civil ali à espera e fui à minha vida", conta Glória Alves. Aos homens à civil juntaram-se alguns jipes e muitos elementos da Guarda Nacional Republicana que cercaram o adro da igreja. "Dizem que parecia o Iraque. Acho que não era preciso tanto", confirma o presidente da junta que, como é hábito, faltou à eucaristia.

Cooperante e sorridente, o padre Fernando Guerra foi levado da igreja para casa, ali ao lado, só com o cemitério no meio. Dentro da casa de pedra, enquanto os militares da Guarda Nacional Republicana encontravam armas ilegais na sua posse, quis telefonar para o posto público de Canedo, para avisar as gentes que o esperavam que não ia rezar a missa das oito. Sobre as armas admitiu que apenas uma estava legal e que outras seriam heranças. Para as que sobravam não tinha explicação. No total foram apreendidas 16 armas ilegais entre pistolas, revólveres e caçadeiras, milhares de munições. Saiu de casa ainda a sorrir, de óculos escuros, e foi levado para a esquadra, com outros três homens detidos no âmbito da mesma investigação. Telefonou depois para o presidente da junta de freguesia de Covas do Barroso, a quem pediu que lhe levasse os medicamentos esquecidos. Não lhe chegou sequer a agradecer o favor. "Estava calmo. Mas estava baralhado e nem agradeceu. Qualquer um ficava baralhado, não é?", diz Olímpio Gomes, o autarca da aldeia, incomodado. "Acaba por ser uma coisa que nos envergonha."

Com a perspectiva de passar a noite na esquadra, o padre quis então que o deixassem ir rezar uma missa de sétimo dia encomendada para segunda-feira de manhã em Covas do Barroso. Que o levassem lá e o trouxessem de volta a seguir. Mas não. Impedido de cumprir o dever, esperou pelo interrogatório. Na tarde de domingo, o caso do padre já aparecia na televisão. Foi assim que alguns fiéis da vizinha Canedo souberam do motivo da falta do sacerdote.

Quando chegou ao tribunal, o padre levava vestido o mesmo sorriso e os mesmos óculos escuros. Desta vez, era esperado por algumas dezenas de habitantes de Covas do Barroso e outras aldeias onde deixou marcas. Aí, chamaram-lhe "padre pistoleiro", pediram justiça e criticaram a hora do acerto de contas: "Custou a entrar lá dentro, mas agora vai." O presidente da junta de Couto de Dornelas contava a quem o quisesse ouvir que, nos tempos em que o padre dava aulas de religião e moral na escola secundária de Boticas, havia armas em cima da mesa do professor e maços de notas para contar à vista dos alunos. Fernando Guerra saiu horas depois do tribunal, cansado. Já era noite, quando regressou a casa de boleia, apesar de o seu Mercedes ter sido levado para Boticas no dia da detenção. Foi posto em liberdade, mas todas as semanas terá de se apresentar em Boticas. Até ao dia do julgamento.

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Comentário + votado

Padre pistoleiro

Tinha armas em casa e não sabia como foram lá parar!.... mas é claro que foi o Espírito Santo que ...

Anónimo

28.10.2009 09:50

X

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