Queda do BPP iniciou-se há oito meses com falta de liquidez

06.06.2009 - 13:21 Por Cristina Ferreira, Luís Villalobos
O primeiro sinal da crise do Banco Privado Português (BPP) surgiu do exterior: no dia 13 de Novembro do ano passado, a Moody's baixou o rating da instituição, sublinhando que os seus investimentos estavam altamente dependentes do mercado de capitais, em forte quebra, e que estes podiam "não só anular os resultados estáveis da unidade de banca privada, mas também enfraquecer o banco".
Poucos dias depois, João Rendeiro, o presidente do BPP e principal accionista da holding que detém a instituição, a Privado, anuncia que iria recorrer ao aval do Estado, uma ferramenta criada para facilitar o acesso a liquidez numa fase de estrangulamento do crédito a nível internacional, solicitando a atribuição de 750 milhões de euros. A partir daqui, tudo parece ter corrido da pior forma para o gestor, para os seus accionistas e para os seus clientes.
Em vez de angariar os 750 milhões de euros, o que dificilmente conseguiria por ser essencialmente um banco de investimentos, João Rendeiro vê a instituição que fundara em 1996 ser cada vez mais escrutinada pelas autoridades, a começar pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e Banco de Portugal. No final desse mês, Rendeiro abandona o cargo de presidente do conselho de administração do BPP.
O banco central encarrega então Adão da Fonseca de liderar o processo de salvação em curso, envolvendo um consórcio de seis instituições financeiras que emprestam 450 milhões de euros com aval público. Ao mesmo tempo, a Deloitte é contratada para avançar com uma nova auditoria. Quanto aos clientes, é-lhes dito que têm de aguardar, não podendo resgatar os seus investimentos por falta de liquidez, e os protestos vão subindo de tom.
Em Janeiro, as instalações da sede do BPP, em Lisboa, são visitadas por duas equipas de investigadores do Ministério Público e da CMVM, devido a suspeitas de branqueamento de capitais, gestão danosa e desvio de fundos para off-shores. Mário Pinto, ligado ao BPP através de Rendeiro, é o único constituído arguido pelo Ministério Público. Poucos dias depois, o Banco de Portugal ordena a suspensão de actividade, até 2011, de seis gestores que tinham transitado da gestão anterior. No mês seguinte é a vez de o Ministério das Finanças se pronunciar, avisando que não se iria responsabilizar pelos compromissos assumidos na gestão de carteiras e fortunas, mas que os depósitos dos clientes estavam "salvaguardados".
Em Maio, o PÚBLICO dá conta de um documento da Deloitte onde se alerta para factos como o de "extractos enviados aos clientes terem sido objecto de adulteração", envolvendo alegadas falsificações de contabilidade e inexistência de contabilidade organizada; e para transacções irregulares que circularam entre contas da instituição, bem como actos dolosos de gestão ruinosa em detrimento dos depositantes, investidores e credores. Informações essas que já estarão nas mãos do Ministério Público. No dia 22 de Maio, os accionistas da holding detentora do BPP, a Privado, agora já sob a presidência de Diogo Vaz Guedes, reúnem-se em assembleia e desmarcam-se do fundador. Após uma recusa em ouvir João Rendeiro, Vaz Guedes afirma que já estava provado que "os problemas no BPP não se devem apenas ao mercado, mas a outras razões". Quanto aos pequenos clientes, estes procuram novas formas de protesto, ocupando a sede do banco no Porto, a que se seguirá a de Lisboa. No entanto, apenas vêem a solução ser adiada, com o prolongamento do congelamento das contas até Setembro, altura em que se poderá optar pelo reembolso faseado.

