Que misteriosas aves verdes e estridentes são estas que invadiram Lisboa?

25.12.2011 - 16:14 Por Helena Geraldes
Todos os dias, centenas de pequenos papagaios verdes e barulhentos passam a rasar os prédios e jardins de Lisboa, como se esta fosse uma cidade tropical. O PÚBLICO foi à procura dos periquitos-de-colar, ave exótica que fugiu há 30 anos da gaiola e que nunca mais quis voltar.
António Gonçalves Pedro tem 92 anos e mora ao lado do Jardim da Estrela. Todos os dias lá vai. Sentado num banco no final de uma tarde fria e ventosa de Inverno, olha para a copa das árvores e para os estranhos pássaros verdes que estão empoleirados nos ramos sem folhas. “Andam sempre por aí. Já os vejo neste jardim há uma dúzia de anos”, diz, procurando confirmação nos olhos do seu amigo que está sentado ao lado. Manuel Mendes, 62 anos, lá confirma. E acrescenta: “a esta hora começam a regressar ao jardim, para dormir, depois de terem passado o dia a alimentarem-se nos campos, lá longe. Todos aqui gostam de os ver e ouvir”, comenta, enquanto vai olhando para cima, para o periquito-de-colar, verde e estridente.
Os menos distraídos já terão dado pela presença em Lisboa das aves Psittacula krameri, sombras verdes, rápidas, de cauda comprida, que rasgam os céus em pequenos bandos, com gritos estridentes. São da família dos papagaios e por isso nada tradicionais por estes lados. A sua terra fica muito longe, nas florestas da África e da Índia.
Como veio parar aos céus e às árvores de Lisboa? Ninguém sabe ao certo, mas Rafael Matias, biólogo e um dos autores do livro “Aves de Portugal”, publicado em 2010, tem uma forte desconfiança. “O periquito-de-colar começou a reproduzir-se em estado selvagem em Portugal nos anos 80 do século passado, talvez por fuga acidental de cativeiro ou introdução deliberada. Era uma ave muito popular nas lojas de animais”, diz.
Em 2003, Rafael Matias esteve no Jardim da Estrela, o maior dormitório conhecido no país desta espécie, para contar os periquitos, de bico vermelho, que se balançam nos ramos finos de plátanos e de outras árvores, aos dois, três ou cinco. Na altura, estimou que ali estivessem mais de 200 aves. Hoje, ninguém sabe quantos existem no país. “Havia pessoas que me perguntavam se não era bom libertar as aves no jardim, por achar que ‘ficavam bonitas aqui’”, recorda.
O Jardim das Conchas, no Lumiar, é outro dos dormitórios do periquito-de-colar. Verónica Bogalho e Nuno Ventinhas, do Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa (CRAS) percorrem os caminhos do jardim, fazendo uma pequena visita guiada à procura desta ave exótica. Até que se começam a ouvir ao longe os gritos estridentes da ave verde. “É verdade que não há um estudo concreto. Mas a autarquia sabe os locais, conhece os dormitórios principais. Esta não é uma espécie desconhecida nem descontrolada”, conta Verónica Bogalho.
Pouco depois, três periquitos poisam nos ramos de altos eucaliptos, ao Sol fraco de Inverno. “Aos primeiros raios de Sol formam bandos e dispersam-se, deslocando-se para vários locais de alimentação (principalmente sementes, mas também bagas e frutos) em Lisboa e na periferia. Podem percorrer distâncias de 11km entre locais de dormida e de alimentação. Antes do pôr-do-Sol regressam aos dormitórios”, acrescenta.
Impactos da ave exótica
De volta ao Jardim da Estrela, quando o Sol começa a querer esconder-se, os periquitos-de-colar tomam conta das árvores frondosas, perto do parque infantil, dos baloiços e do lago dos patos. Chamam-se uns aos outros num barulho que ninguém consegue ignorar e que faz lembrar sons de uma floresta tropical de um destino distante. Um casal de aves espreita para dentro de um ninho num buraco no tronco de um plátano mas depressa muda de ideias e voa para a árvore do lado, equilibra-se nos ramos e limpa as penas com o bico. Lá em baixo, crianças seguem em triciclos ao lado dos pais, outras brincam nos baloiços e na esplanada do café desfiam-se conversas sobre a crise.

