Livro Vermelho sobre os vertebrados

Quase metade das espécies em Portugal está ameaçada

19.04.2006 - 08:09 Por Ana Fernandes, PÚBLICO

  • Votar 
  •  | 
  •  0 votos 
O lince ibérico é um dos animais na lista O lince ibérico é um dos animais na lista (EPA (arquivo))
Das espécies de vertebrados que existem em Portugal, 42 por cento estão ameaçados. São os peixes de água doce e migradores que estão na pior situação, já que 69 por cento estão reduzidos a populações que enfrentam dificuldades de sobrevivência. Estas são algumas das conclusões do Livro Vermelho dos Vertebrados em Portugal, que é hoje divulgado e que actualiza os dados sobre o risco de extinção que pesa sobre os bichos nacionais.

O Livro, da responsabilidade do Instituto da Conservação da Natureza (ICN) e que contou com a colaboração de mais 180 especialistas nas diferentes espécies, avaliou, desde 2001, o estatuto de conservação anfíbios e dos peixes de água doce e migradores do continente e dos répteis, aves e mamíferos do país inteiro. Para concluir que Portugal já conta com 19 extinções, 17 das quais de aves.

O esturjão, o urso pardo ou o falcão-da-rainha são alguns desses animais que já desapareceram do território nacional. Mas também há boas notícias. A cabra montês, que era dada como extinta no Livro Vermelho anterior (datado de 1990) reapareceu no Parque Nacional da Peneda-Gerês graças ao esforço galego para o repovoamento da espécie.

Noutros casos, como o da águia-pesqueira, os autores ainda não a consideram extinta como espécie nidificante, não obstante já só exista um macho no Sudoeste alentejano, o que não garante a reprodução. A esperança de que mais cedo ou mais tarde surja uma companheira manteve-a com o estatuto de "criticamente em perigo".

O levantamento

A avaliação do estatuto incidiu sobre 512 espécies de vertebrados, que foram classificadas segundo os critérios estabelecidos pela União Internacional para a Conservação (UICN) em 2001. O facto de se usarem novas formas de avaliação impede que se consiga comparar a evolução da situação desde os últimos Livros Vermelhos, datados do início da década de 90. Porém, segundo Maria João Cabral, que coordenou esta edição, o número de espécies ameaçadas mantém-se semelhante.

Assim, 46 por cento das espécies não têm qualquer estatuto de ameaça e não existe conhecimento suficiente sobre 12 por cento dos animais. Os 42 por cento restantes estão abrangidos pelas três categorias de ameaça (Criticamente em Perigo, Em Perigo e Vulnerável) e também pelo critério Quase Ameaçado.

Houve, porém, evoluções. O esturjão, por exemplo, desapareceu dos rios portugueses. Já o esquilo, que na anterior edição aparecia como "raro", agora é classificado como "pouco preocupante". Isto porque, há 15 anos, a espécie estava a começar a colonizar o continente, vinda de Espanha, tendo agora atingido populações estáveis. Pelo contrário, o sisão, uma ave que não era considerada ameaçada, passou agora ao estatuto de vulnerável.

Estas alterações, adianta Maria João Cabral, prendem-se, nalguns casos, com o aumento de problemas que ameaçam as espécies. Mas nem sempre. "A mudança dos critérios de avaliação e o aumento do conhecimento sobre algumas espécies explicam algumas das mudanças", diz a responsável.

As ameaças

Contas feitas, estão em risco 69 por cento dos peixes, 38 por cento das aves, 32 por cento dos répteis, 19 por cento dos anfíbios e 26 por cento dos mamíferos. Porém, ressalva Maria Elisa Oliveira, que coordenou o grupo dos anfíbios e répteis, a situação aparentemente pouco preocupante dos anfíbios pode não traduzir exactamente a realidade: os critérios da UICN "não são fáceis de aplicar nestes casos, pois foram pensados para os grandes mamíferos". Além disso, há algumas populações isoladas, o que aumenta as suas probabilidades de extinção.

De uma forma geral, salientam os autores, os factores que ameaçam a biodiversidade portuguesa são a destruição, a fragmentação ou a deterioração dos habitats. As redes viárias, a urbanização, os incêndios, as barragens no caso dos peixes e as transformações na agricultura explicam esta perda do território essencial para as espécies.

Mas outros factores explicam que 42 por cento das espécies estejam ameaçadas, como a perseguição pelo homem, a invasão de espécies exóticas, as doenças ou os atropelamentos. Ameaças que se têm mantido ao longo dos anos.

Estatísticas

  • 207 leitores
  • 7 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1254506

Comentário + votado

Se é para isto, vale a pena sermos um país?

E assim preparamos para os nossos filhos um mundo morto. Um caixão em paredes de cimento armado, ...

Anónimo

19.04.2006 15:31

X

Mais em Sociedade (3 de 19 artigos)

O projecto servirá também para outras instituições Casa Pia: plano de prevenção de abusos sexuais vai ser apresentado hoje