Uma tragédia moderna

Quando se deixa morrer o filho no banco de trás

15.03.2009 - 08:15

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Miles e Carol Harrison confortam-se um ao outro à porta do quarto do filho Chase Miles e Carol Harrison confortam-se um ao outro à porta do quarto do filho Chase (Rebecca Drobis/"The Washington Post")
Homens e mulheres que têm em comum uma história incomprensível, indizível, insuportável: mataram acidentalmente os seus bebés porque se esqueceram deles no carro. Nos Estados Unidos, acontece entre 15 a 25 vezes por ano. Em Aveiro, aconteceu esta quinta-feira. É uma tragédia moderna, desde que os bebés foram relegados para o banco de trás.

O réu era um homem enorme, bem para cima dos 140 quilos, mas com a gravidade da sua tristeza e da sua vergonha parecia ainda maior. Inclinava-se para a frente numa robusta cadeira de madeira onde mal se conseguia encaixar, enquanto chorava mansamente, encharcando lenço atrás de lenço, e uma perna balouçava nervosamente por baixo da mesa. Nas primeiras filas de bancos reservados para os espectadores estava sentada a sua mulher, parecendo devastada, rodando a aliança de casamento distraidamente. A sala parecia um sepulcro. As testemunhas falavam baixo sobre acontecimentos tão dolorosos que a maior parte delas perdeu a compostura. Uma enfermeira do serviço de urgências de um hospital chorou ao descrever a forma como o réu se tinha comportado depois de a polícia o ter levado. Ele estava virtualmente catatónico, recorda a enfermeira, com os olhos fechados com força, balançando-se para a frente e para trás, fechado em algum tormento pessoal impenetrável. Durante muito tempo não disse nada, só o fez quando a enfermeira se sentou ao seu lado e segurou na sua mão. Foi apenas aí que o paciente começou a abrir-se, e o que ele disse foi que não queria qualquer medicamento, que não merecia alívio para a dor, que queria senti-la toda, e depois morrer.

Na sala do tribunal, o Ministério Público da Virgínia, Estados Unidos, avançou com a acusação de homicídio involuntário. Não havia grande questão quanto aos factos. Miles Harrison, de 49 anos, era uma pessoa afável, um homem de negócios empreendedor e um pai consciencioso e carinhoso até ao dia em que, no Verão anterior - envolvido em problemas no trabalho, fazendo chamada após chamada no seu telemóvel -, se esqueceu de deixar o filho, Chase, na creche. A criança sufocou lentamente até à morte, presa com o cinto do banco do carro durante nove horas, num parque de estacionamento de um bloco de escritórios em Herndon, no imenso calor do mês de Julho.

Foi um erro inexplicável e imperdoável, mas terá sido crime? Era essa a questão que o júri tinha que resolver.

A determinado ponto, durante um intervalo dos trabalhos, Harrison levantou-se hesitante, virou-se para abandonar a sala do tribunal e viu, como se fosse a primeira vez, que havia pessoas a testemunhar a sua desgraça. Os olhos daquele homem enorme viraram-se para o chão. Tremeu um pouco até que alguém o equilibrou, e então balbuciou num falsete: "Meu pobre filhinho!".

Um grupo de alunos do liceu encheu a sala, numa visita de estudo ao tribunal. O professor que os acompanhava não estava visivelmente à espera disto: em poucos minutos, os miúdos de olhos arregalados foram mandados para fora da sala.

O julgamento durou três dias. A assistir a tudo, lado a lado no fundo da sala, estiveram duas mulheres que tinham viajado durante horas para chegar até ali. Ao contrário de quase todas as pessoas sentadas nos bancos, não eram familiares, colegas de trabalho ou amigas íntimas do acusado.

"... a parte inferior do corpo tinha cor vermelha a vermelha-púrpura..."

À medida que as provas mais impressionantes eram mostradas pelo médico especialista em patologia forense, as duas mulheres no fundo da sala juntavam-se mais, encostando-se uma à outra.

"... uma descoloração verde no abdómen... autólise dos órgãos... aquilo a que chamamos definhamento da pele... a temperatura do corpo atinge os 42,2 graus centígrados, após o que se dá a morte."

Mary - a mais velha e mais baixa - tremia. Lyn - a mais nova, mais alta, com longos cabelos louros - puxou-a, com um braço à volta dos ombros.

Quando o julgamento terminou, Lyn Balfour e Mary Parks saíram discretamente. Não queriam ter estado ali, mas sentiam que tinham obrigação de o fazer, quer para com o réu quer, de uma forma muito mais obscura, para com elas próprias.

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