Prostituição de menores é o último acto das longas noites do Parque

03.09.2010 - 07:48 Por Paulo Moura
Duas da manhã, silêncio absoluto no parque. O Carlinhos está sentado num banco de jardim da Alameda Edgar Cardoso, atento ao desfile dos carros familiares. A mãe pensa que está com a avó, a avó pensa que está com a mãe. Sérgio já partiu e já voltou. Foi buscar a mulher ao emprego, deu-lhe "assistência", deixou-a a dormir e veio dar uma volta. "Ela nem sonha que eu faço isto", diz. Estamos no intervalo entre o terceiro acto e o quarto. Só as tragédias têm 4 actos.
"Está a ver os carros que passam? São carros grandes, familiares, mas só trazem homens sozinhos. Isso quer dizer que eles têm família", diz o Carlinhos, 16 anos.
"Eu adoro o parque", declara Sérgio, 27 anos. "É aqui que tudo se passa. Isto é um mundo. Não é por dinheiro que eu venho para cá. É por prazer."
As actividades começam ao fim da tarde. Até lá, o Parque Eduardo VII é um lugar insuspeito. Mas ao pôr-do-sol coisas estranhas acontecem. Sentem-se movimentações a noroeste, algumas marcações de posição a sudeste. Funciona como um parque de diversões muito bem gerido. O programa é rico e variado, pelo que a organização é fundamental. Tudo tem de começar a horas, não há lugar para improvisos.
A hora do crepúsculo é uma espécie de transição. No Marquês de Pombal enfeixa-se o último tráfego da hora de ponta, enquanto pela Alameda Cardeal Cerejeira se apresentam as prostitutas. De meia- idade, cabelo oxigenado e saltos altos, ocupam os bancos da metade norte da Edgar Cardoso.
Com a noite chegam outras personagens. Saem de cena os namorados, entram os prostitutos a pé. Passa-se este segundo acto mais para o interior do jardim. Como não passam carros, os profissionais sentam-se nos bancos ou na relva e fazem olhinhos a quem passa. Ou colocam-se atrás de um tronco, masturbando-se com brio. É o caso de Sérgio. Cansado de estar horas no banco, recostado com as pernas abertas, vai até à árvore e junta o útil ao agradável, exibindo o seu instrumento de trabalho.
"Só faço casais", diz ele, rosto bronzeado e untado de cremes, calças de ganga e T-shirt muito justas, exalando essência Dolce e Gabana. "Encontramo-nos aqui, mas depois vamos para um hotel. Geralmente, dou "assistência" à senhora e o marido fica a ver. Não gosto de paneleiros."
Enquanto ali estamos, não passam casais. O negócio está fraco nesse sector. Já homens sozinhos, quase fazem fila. Era para eles que Sérgio se exibia. Mas não o admite. "Um homem ou outro às vezes. Mas é raro." Também lhe custa admitir que cobra dinheiro. "Faço por prazer. Claro que às vezes, quando eles insistem muito, lá aceito, por boa educação."
Durante o dia, Sérgio tem um emprego. Mal despega vem para aqui. Às 11, vai buscar a mulher, que trabalha numa loja. Vão para casa, jantam, conversam, fazem amor. Ela não sabe de nada. Às vezes Sérgio volta para o parque, outras vezes não. "Tenho de lhe dar "assistência" a ela, e depois ainda estar em forma. Não é fácil. Mas eu consigo sempre. E não preciso de comprimidos. É psicológico."
Aqui no parque, um veterano explicou-lhe como as coisas funcionam. "Aprendi muito com ele. Por exemplo, se um casal diz que está hospedado numa pensão, não devemos ir, porque é sinal que não têm dinheiro. Só vamos a hotéis." Nada mau para quem faz isto só por prazer.
"Ah, mas é também uma questão de segurança. Numa pensão, nunca sabemos o que vamos encontrar dentro de um quarto. No Hotel Mundial, para onde eu vou, é tudo controlado. As pessoas têm de estar registadas na recepção. Eu chego lá e já nem me dizem nada. Já me conhecem."
Sérgio levanta-se. É um homem alto e atlético, embora isso não seja a principal razão do seu êxito. "Quando elas experimentam ficam a saber o que é bom", explica ele, ajeitando as calças. "Isto tem uma explicação", acrescenta, científico. "Eu comecei a minha vida sexual muito tarde. É por isso que agora consigo coisas que a maioria dos homens não consegue."
Terceiro acto: o povo
Estamos, portanto, nas primeiras horas da noite. A noroeste actuam as mulheres, a sudoeste os homens. As profissões mais honestas, por assim dizer. É também a hora da infantaria. Os clientes chegam a pé, sentam-se num banco e conversam. Com o avançar das trevas, os negócios ficam mais escuros também.
A noroeste, as prostitutas afastam-se para a zona da cavalaria - a Rua Castilho, onde começam a atender os carros que vão parando.

