Selmes é uma pequena freguesia do concelho da Vidigueira. A sua população é muito devotada aos mistérios do Além e ao espírito errante do morgado da Rabadoa, desaparecido de forma dramática nos primeiros anos do século XX e cuja alma, garantem, andará a cirandar na busca do infortúnio de quem circula numa qualquer curva da estrada que liga a povoação ao mundo real. Pois bem, é nesta terra que trata tu cá, tu lá as almas do outro mundo que uma população tolhida pelo medo foi testemunha das acções violentas de um indivíduo romeno que está ligado a práticas ilegais de tráfico de mão-de-obra do seu país, sob a capa de uma empresa de trabalho temporário e sobre o qual impendem mandados de captura.
Este indivíduo manteve numa casa em Selmes, nas últimas duas semanas, 11 imigrantes romenos sob coacção e sujeitos a agressões físicas, desde que um deles passou a frequentar o café-restaurante Refúgio de S. Gabriel. A proprietária, Joaquina Coelho, contou ao PÚBLICO que os imigrantes, vindos de Espanha, eram obrigados a levantar-se todos os dias entre a 3h00 e as 4h00 para trabalhar em explorações agrícolas a 50 ou 100 quilómetros de distância e a regressar ao final da tarde.
A casa onde pernoitam não tem qualquer mobiliário. Dormem no chão em cima de cartões, conta a proprietária do café, que ficou perplexa quando, há cerca de 10 dias, dois romenos lhe pediram, por gestos, para comer os restos das refeições que os clientes deixavam nos pratos.
O PÚBLICO esteve na povoação na manhã da última sexta-feira, horas depois dos imigrantes romenos terem sido despejados da casa onde dormiam, após a actuação de elementos do Corpo de Intervenção da GNR, que se deslocaram a Selmes para evitar a eclosão de um conflito social entre os imigrantes romenos e a população, que estava muito assustada com a sua presença. Apresentavam-se descalços, muito sujos, a cheirar mal e sempre esfomeados.
Reagindo à intervenção da GNR, o engajador que as autoridades dizem perseguir expulsou da casa os 11 emigrantes. Durante a madrugada quatro dos despejados fugiram a pé para Moura, percorrendo cerca de 20 quilómetros, sem comer há pelo menos 24 horas, para se entregar na PSP local apresentando grande debilidade física e marcas de agressão física. O caso ficou sob a alçada da Segurança Social e já regressaram à Roménia, como era seu desejo expresso.
"Andamos tão cansados..."
Esta empresa de trabalho temporário que está identificada na delegação de Beja da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) como sendo a Privo - Constantin-Daniel encontra-se associada a outra triste ocorrência que fez uma vítima mortal numa família romena. No passado dia 13 de Junho, oito imigrantes saíram do monte do Pisanito na freguesia de Pias, concelho de Serpa, às 4h30, para executar tarefas na manutenção de um olival, na Herdade do Sobrado, em Ferreira do Alentejo, para onde se deslocaram numa carrinha de sete lugares. Quando já se encontravam próximo do local de trabalho, no troço do IP8 próximo de Figueira de Cavaleiros, o sono feito de cansaço tomou conta do motorista, Iacon Beleci, e fê-los embater no muro de uma ponte. O condutor, que aceitou ser identificado, descreve, num razoável português, os contornos do desastre que matou um dos seus sobrinhos. "Deixámo-nos dormir todos no carro e eu também".
Além da morte do sobrinho, tem uma cunhada internada em Lisboa, em estado grave, um cunhado a quem foi extraído o baço, outro sobrinho operado à coluna e uma sobrinha de tal forma traumatizada com a morte do irmão que perdeu a razão. A esposa do condutor fracturou o fémur e o PÚBLICO foi encontrá-la na freguesia de S. Matias, no concelho de Beja, deitada numa cama sem condições. Iacob Beleci, que sofreu apenas pequenos ferimentos, chora desesperado com o drama que afectou boa parte da sua família e explica a causa do acidente. "Nós andamos tão cansados do trabalho e dormimos tão pouco..."


