Programa Alimentar Mundial discute retoma da ajuda com Governo de Angola

13.10.2006 - 11:40 Por Joana Amaral Cardoso
O Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas está em conversações com o Governo de Angola para tentar assegurar a retoma da distribuição de alimentos no país, mas "tudo indica que a comunidade doadora internacional não vá apoiar" os seus esforços.
Manuel Cristóvão, porta-voz do Programa Alimentar Mundial (PAM) em Angola, disse ao PUBLICO.PT que ainda não há solução à vista para a suspensão da entrega de alimentos e que "tudo indica que a comunidade doadora internacional não vá apoiar" os esforços da delegação angolana.
O PAM suspendeu a distribuição de alimentos devido à falta de verbas para o transporte das 17 mil toneladas armazenadas, que deveriam chegar às 470 mil pessoas que beneficiam das ofertas da agência das Nações Unidas.
O porta-voz do PAM em Angola explicou que é possível que alguns dos beneficiários dos projectos possam ainda estar a receber alimentos devido à cooperação de alguns parceiros que ainda estavam em condições de garantir transportes.
Mas a situação não tem uma solução à vista: "Até ao momento não temos novidades. Continuamos a reunir-nos com o Ministério do Planeamento e da Assistência Social (...) para discutir a possibilidade de ser o Governo a realizar o transporte" dos alimentos que estão em "stock", explicou, em entrevista telefónica ao PUBLICO.PT.
Quanto à outra fonte possível de verbas - a comunidade doadora internacional -, a delegação angolana não acalenta muitas esperanças: "Ainda não recebemos nada e tudo indica que a comunidade doadora internacional não vá apoiar os nossos esforços."
Comunidade internacional quer maior envolvimento do Governo de Angola
Questionado sobre os motivos de tal escassez de apoios, Manuel Cristovão explicou que "há uma série de factores, nomeadamente as outras crises na região, como é o caso do Sudão". "Mas há também o facto de a comunidade internacional querer ver o Governo angolano a ajudar a resolver os problemas humanitários que o país tem", contextualiza.
Os problemas de financiamento fazem-se sentir desde o início da operação em Angola, revelou o porta-voz da agência das Nações Unidas. "Temos vindo sempre a debater-nos com a falta de recursos", lamentou.
O PAM tem vindo a reduzir a sua área de acção em Angola desde meados de 2005, altura em que começou a alertar para os problemas de financiamento.
Até Setembro, mantinha-se apenas a assistência a populações mais carenciadas nas províncias de Luanda, Huambo, Bié, Benguela e Moxico, para além do serviço de entrega de merendas aos alunos de muitas escolas angolanas, abrangendo 220 mil crianças. Ambas as acções integram o novo programa do PAM em Angola, lançado em Abril deste ano e que agora está suspenso, quando tinha uma duração inicial prevista de três anos.
Um estudo do PAM datado de 2005 verificou que nas zonas rurais do Leste e do Sul de Angola "mais de 900 mil pessoas ainda não recebem alimentos suficientes e pelo menos 45 por cento das crianças menores de cinco anos sofrem de má nutrição crónica".
Angola viveu uma longa guerra civil, entre 1975 e 2002, e as marcas do conflito fazem-se sentir até hoje nas infra-estruturas básicas do país. As distribuições alimentares do PAM são essenciais para Angola, que tem 14 milhões de habitantes e onde o sector agrícola está praticamente paralisado devido à falta de equipamentos e infra-estruturas.

