Procurador-geral da República: em Portugal não há “consciência ética forte” para censurar a corrupção 
24.02.2007 - 14:47 Por Lusa
O procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, disse hoje, em Coimbra, que “não há ainda em Portugal uma consciência ética forte que censure a corrupção”, comentando um estudo segundo o qual “os portugueses são permissivos face à corrupção”.
As conclusões preliminares do estudo “Corrupção e Ética em Democracia: o caso de Portugal”, elaborado pelo Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), divulgado hoje pelo PÚBLICO, revelam que “a maioria dos portugueses considera ineficaz o combate à corrupção e diz que há uma cultura de permissividade em Portugal”.
Dos 1009 indivíduos inquiridos, entre 10 e 26 de Fevereiro de 2006, a maioria atribui ao Governo a responsabilidade pela ineficácia no combate à sua prática e só depois ao aparelho judicial.
Comunicação social “trouxe o tema” a público
Falando à entrada para uma conferência na Universidade de Coimbra, sobre “Comunicação Social e o Ministério Público”, no âmbito do 10º curso de Pós-Graduação em Direito Penal Económico e Europeu da Faculdade de Direito, o PGR afirmou que a “corrupção em Portugal é média, menos do que média”.
“Não há uma consciência ética forte que censure a corrupção em Portugal, esse é o grande problema. A maior parte dos portugueses durante muito tempo encaravam a corrupção como uma coisa que naturalmente acontecia e que todos faziam”, disse Pinto Monteiro.
Durante a conferência, Pinto Monteiro reiterou que durante anos, a “corrupção não foi censurada pela consciência moral do povo”, dizendo que a sua prática “começa agora a ser censurável graças à comunicação social, que trouxe o tema para a praça pública”.
Segredo de justiça mal protegido
O PGR abordou o relacionamento entre o meio judicial e a comunicação social e a violação do segredo de justiça, que na sua opinião está mal protegido.
Rejeitando o aumento das penas para quem o viole, o magistrado defendeu, no entanto, a diminuição do número de processos abrangidos pelo segredo de justiça, para evitar que continue a ser “violado de forma impune”.
Liberdade de imprensa colide com outros direitos
Pinto Monteiro destacou a importância da comunicação social na sociedade para assegurar melhor transparência da administração pública, mas alertou para a conflitualidade entre o direito de informar e os direitos individuais.
“O problema que hoje se coloca não é do da liberdade de imprensa, mas sim as suas limitações e a colisão com outros direitos”, referiu, mostrando-se preocupado com “o tempo dos tribunais e a velocidade da informação”.
O PGR alertou ainda para a tentação dos tribunais cederem à mediatização e às influências negativas que a comunicação social pode exercer junto dos decisores judiciários.
“Onde acaba a função pública da liberdade de imprensa? Até onde vai o direito de informar? Eu próprio não tenho certezas”, afirmou Pinto Monteiro, que, independentemente da lei vir a ser alterada, considera que “haverá sempre violação ao segredo de justiça”.
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