Procurador defende alteração legislativa para evitar adopção por pedófilos

20.05.2008 - 18:04 Por Lusa
Apesar de desconhecer se alguma vez algum pedófilo adoptou uma criança em Portugal, o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, defendeu hoje que se introduzam algumas alterações à lei para evitar que tal situação possa acontecer.
"O que há de perigo neste momento é que no registo criminal desaparece a condenação, portanto, é possível um pedófilo vir a adoptar uma criança. É fácil, é alterarem a lei", disse Pinto Monteiro aos jornalistas à margem da conferência europeia "Crianças Desaparecidas e Exploradas Sexualmente: Segurança na Internet", que decorreu hoje em Lisboa. Pinto Monteiro disse que é urgente que se “evitem casos desses", acrescentando desconhecer a existência de qualquer situação destas em Portugal. "Que eu saiba não aconteceu, mas pode ter acontecido, no campo das hipóteses é possível acontecer", disse.
Pinto Monteiro reagia, assim, ao apelo lançado pela presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Manuela Eanes, que, durante a sessão de abertura da conferência, considerou inadmissível a adopção de crianças "por criminosos sexuais" e defendeu o acesso ao registo criminal. "Não se compreende que o Ministério Público, junto dos tribunais de família e menores não tenha acesso aos certificados de registo criminal, visto que se mostram úteis, designadamente em acções de inibição de exercício do poder paternal, quando há prova de abuso sexual dos filhos e suspeita da prática de outros crimes anteriores, ainda que tenha decorrido muito tempo sobre a condenação", disse Manuela Eanes.
A possibilidade de adopção de crianças por pedófilos foi levantada com o caso ocorrido na Áustria com Josef Fritzl, que manteve durante 24 anos a filha prisioneira na cave de sua casa, tendo durante esse período adoptado três das sete crianças que teve com ela. A adopção das crianças foi possível porque, apesar de ter antecedentes criminais por violação, o seu registo foi limpo passados 15 anos do cumprimento da pena. Em Portugal, o registo criminal é um dos documentos obrigatórios para iniciar um processo de adopção, mas o cadastro fica em branco entre cinco a 10 anos, quer seja por um crime de furto quer de homicídio, pedofilia ou abuso sexual.
Base de dados acessível a todas as polícias
Na sessão de abertura da conferência, que decorre no âmbito do Dia Internacional da Criança Desaparecida, que se assinala a 25 de Maio, a presidente do IAC sublinhou ainda a necessidade de criação de uma base de dados confidenciais que permita às polícias dos vários países seguirem "os movimentos de pessoas com historial de agressões sexuais a crianças". Manuela Eanes considerou também que as organizações que trabalham com crianças deviam exigir o registo criminal dos trabalhadores e defendeu a adequação do sistema penal "às necessidades de protecção eficaz das crianças", considerando que "não faz sentido" continuar a aplicar "a figura do crime continuado aquando da repetição de crimes de abuso sexual de crianças". "Tem que haver uma legislação e uma penalização mais fortes em relação a todos estes crimes", reforçou.
Por outro lado, a responsável defendeu uma aposta na prevenção para evitar o desaparecimento e combater a exploração sexual de crianças que passará pela "protecção dos menores na Internet". "É necessário generalizar nos servidores os dispositivos de controlo parental e encorajar a sua aplicação crescente", afirmou, acrescentando serem ainda necessárias medidas como o bloqueamento de sites de pedopornografia e a criminalização desta prática a nível europeu. A responsável apontou como exemplo o caso da Suécia, onde a utilização de filtros para bloquear sites de pedopornografia impediram mais de 100 mil acessos a estes conteúdos.

