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Caso da menina russa

Presidente do IAC relembra urgência de clarificação na lei do conceito"superior interesse da criança"

27.05.2009 - 18:40 Por Lusa

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Dulce Rocha diz que lei não deve apenas considerar em perigo uma criança vítima de maus tratos, mas também as que estão numa situação de ruptura Dulce Rocha diz que lei não deve apenas considerar em perigo uma criança vítima de maus tratos, mas também as que estão numa situação de ruptura (Miguel Silva)
A presidente executiva do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Dulce Rocha, considerou hoje urgente a clarificação na lei do conceito "superior interesse da criança" de forma a harmonizar as decisões judiciais.

"Sobre a mesma questão concreta é possível com a lei que temos haver decisões opostas", disse a magistrada em declarações à Agência Lusa quando questionada sobre o caso da criança russa entregue à mãe biológica.

As duas decisões judiciais sobre este caso invocaram este princípio e tiveram resultados opostos: O Tribunal Judicial de Barcelos determinou que a criança deveria continuar à guarda do casal português que a criou, enquanto o Tribunal da Relação de Guimarães considerou que esta deveria ser entregue à mãe.

Dulce Rocha, procuradora e ex-presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, defende que a clarificação deste conceito evitava assim decisões completamente opostas face aos mesmos factos.

"A mensagem do IAC é mostrar que de facto tínhamos razão quando dissemos que era essencial uma reflexão sobre a Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Risco para a uniformização das decisões judiciais", disse.

A procuradora relembrou o documento do IAC, subscrito por várias personalidades, enviado em 2008 à Assembleia da República em defesa dessa clarificação e que até ao momento ainda não teve qualquer desenvolvimento. "É essencial que o Parlamento se pronuncie sobre este documento", disse.

Segundo Dulce Rocha, o princípio do "superior interesse da criança" é indeterminado, mas existem meios de o clarificar através da consagração de direitos que ainda não estão na lei, entre os quais o direito à preservação das relações afectivas profundas.

"No documento entregue a 15 de Abril de 2008, é proposta a introdução de duas alíneas para atribuir à lei uma conteúdo mais preventivo, para que não seja apenas considerada em perigo uma criança vítima de maus tratos, mas também todas aquelas que estão numa situação de ruptura", disse.

O documento teve o contributo de diversas personalidades na área do direito das crianças e foi subscrito por cerca de 300 pessoas de diferentes áreas profissionais, entre juristas, pediatras, pedopsiquiatras, psicólogos, educadores e sociólogos.

O IAC reafirma no documento o direito da criança a ser ouvida, a garantir a livre expressão do seu pensamento e a participação nas decisões que lhe dizem respeito, tal como reconhece o artigo 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança.

A menina Alexandra, de seis anos e filha de uma imigrante russa, estava à guarda de uma família de Barcelos há quatro anos, mas uma decisão judicial de 2008 determinou que fosse devolvida à família biológica, apesar dos problemas de alcoolismo que os técnicos referenciaram na mãe. O pai, um imigrante ucraniano, vive actualmente em Espanha.

Na semana passada, a criança, que fala apenas português, passou a viver com a mãe e a avó numa cidade russa, a 350 quilómetros de Moscovo.

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