Trabalhadores portugueses recrutados no Norte de Portugal desesperam em Stramproy, no Sul da Holanda, perto de Maastricht. "Eram vários a dizer que não comiam há vários dias", algumas dezenas, denuncia José Xavier, conselheiro das comunidades portugueses, que ontem os visitou nos "bungalows" que os acolhem.
Foram contratados pela Tempo-Team, uma agência de trabalho temporário holandesa, para prestar serviços indiferenciados em empresas como a distribuidora DHL. Grande parte terá sido recrutada, através de um anúncio publicado no "Jornal de Notícias", por um intermediário de Paredes. Deslocaram-se numa camioneta da InterNorte, mediante promessa de um salário de 1250 euros mensais mais horas extraordinárias.
Muitos acusam salários em atraso. Um número diminuto, que chegou há duas semanas, queixa-se de não ter sido colocado em qualquer posto de trabalho. Várias dezenas estariam a enfrentar problemas alimentares. "Uns foram ajudando os outros, mas a situação tornou-se insustentável, porque o dinheiro que trouxeram acabou. Um deles disse-me que, nos últimos dias, comeu esparguete com esparguete, outro que comeu arroz com arroz. Outro disse-me que, há uma semana, era só um pãozinho que comia".
No campo onde se encontram alojados, sobrava "agressividade". "Já não há contacto verbal com o capataz", notou o conselheiro, atribuindo a tensão à fome. Um rapaz já agrediu o capataz. Anteontem à noite, "um grupo de 15 a 20 fez as malas" e regressou a Portugal.
José Xavier interpelou, por telefone, o dono da agência, que se "mostrou muito admirado". "Ele comprometeu-se a resolver a situação: chamou o capataz português para ir ao supermercado comprar comida e disse que, na segunda-feira, pagaria aos que já tinham trabalhado e que daria algum dinheiro aos que ainda não começaram a trabalhar", relata.
De acordo com Cis Hageman, da Tempo-Team, a agência emprega ali entre 80 e cem portugueses. "Há muitos que estão à espera de um novo contrato", justificou. "Estamos a tentar resolver o problema, mas precisamos que as empresas tenham trabalho".
Hageman salientou que muitos portugueses usam uma conta de um banco português. Com um atraso de "dois ou três dias" nos processamentos e o percurso próprio das transferências, acabam por só receber o salário a partir da terceira semana.
Ao conselheiro, os trabalhadores afiançaram que acordaram um adiantamento no fim da primeira semana e receber os salários "certinhos" já a partir da segunda semana. "Alguns já trabalharam três semanas, não receberam nada e estão em dívida para com a empresa, porque a viagem é para descontar!". E o alojamento custa 52 euros semanais.
O conselheiro volta a focar a "necessidade" de um assistente social no Consulado de Portugal na Holanda, capaz de "ir ao terreno analisar o caso e interferir junto da entidade patronal". Há duas semanas, um jovem telefonou para os serviços consulares a pedir ajuda para regressar a tempo de participar no funeral da mãe. "Responderam-lhe que não tinham dinheiro para ajudar quem quer que fosse."


