Portugueses no Sul da Holanda já receberam comida

13.11.2006 - 08:10 Por Ana Cristina Pereira, (PÚBLICO)
O drama de Stramproy, no Sul da Holanda, parece ter terminado. Os trabalhadores portugueses que se queixavam de problemas alimentares receberam comida anteontem à noite. O coordenador foi às compras e entregou-lhes bens alimentares. Hoje, deverão obter dinheiro.
A notícia de que haveria trabalhadores a passar fome "surpreendeu" o representante em Portugal da Work Today, a empresa que recrutou os portugueses para a Tempo-Team, uma das mais importantes agências holandesas de trabalho temporário. "Há pessoas que estão lá há duas semanas e já dizem que estão a passar fome! Elas sabem que têm de levar dinheiro para sobreviver as três primeiras semanas!"
Angariados através de anúncios publicados no Jornal de Notícias, mediante promessa de bom salário, os trabalhadores são transportados para a Holanda em autocarros. A empresa de recrutamento adianta-lhes o dinheiro da viagem e coloca-os à disposição da Tempo-Team. E é esta que os põe a desempenhar tarefas indiferenciadas em empresas como a DHL.
O angariador português, que prefere não ser identificado, sublinhou a legalidade das duas empresas - a de recrutamento e a de trabalho temporário -, garantindo que "as pessoas receberão o que têm a receber". Quis, assim, descartar qualquer analogia com a polémica que envolveu a The Five e a Columbus, duas agências que a federação de sindicatos holandeses resolveu agora levar a tribunal por, alegadamente, pagarem menos do que o prometido a vários trabalhadores lusos.
Apesar de a Holanda integrar a União Europeia, impõe-se uma série de trâmites que se prendem com a regularização dos trabalhadores. Para auferir um salário, têm de ter um número fiscal holandês. Não o recebem de modo directo: a empresa utilizadora da mão-de-obra paga à agência fornecedora, que, por sua vez, paga aos trabalhadores.
O pagamento é efectuado por transferência bancária, explicara já anteontem Cis Hageman, um dos representantes holandeses da Work-Today (e não da Tempo-Team, como se escreveu). Como os portugueses lidam com bancos portugueses e, por vezes, há "ligeiros" atrasos no processamento do salário, o dinheiro só começa a cair na conta a partir da terceira semana, justificou.
"Uns 20" com problemas alimentares
Alguns trabalhadores atestam terem sido apanhados desprevenidos por este hiato - ter-lhes-á sido prometido que aceitariam um adiantamento na primeira semana e salários certos a partir da segunda. Outros alegam estranheza por auferirem apenas cerca de 47 euros à terceira semana. A quantia varia de acordo com as horas de trabalho efectuadas por cada um. Todavia, na primeira transferência, há "acertos" relativos à viagem de autocarro (pouco mais de 130 euros), ao alojamento (52 euros semanais) e ao seguro (18 euros semanais).
Em bungalows, numa zona arborizada de Stramproy, estarão entre 80 e cento e poucos portugueses. Foi um deles que "alertou" o conselheiro das comunidades portuguesas na Holanda, José Xavier, para a existência de "dezenas" a enfrentar dificuldades alimentares por força de "salários em atraso" e de falta de colocação.
"Eram vários a dizer que não comiam há vários dias", relatou ao PÚBLICO José Xavier, que anteontem visitou o local com uma equipa de reportagem da RTP. Outros afirmavam que se confinavam a dietas alimentares empobrecidas - "esparguete com esparguete" ou "arroz com arroz". O clima estaria tenso. Um dos rapazes já teria mesmo agredido o coordenador da agência de recrutamento.
Haverá os prevenidos e os desprevenidos. "Alguns, que chegaram há duas semanas, estão com problemas", confirmou, ao telefone, Rui Silva, que desembarcou há um mês e não acusa qualquer problema. Quantos? "Uns 20", retorquiu.
Entre "15 e 20" já teriam regressado a Portugal na semana passada. Ontem, apesar de haver comida e promessa de contas acertadas, um rapaz avançou para o Luxemburgo.
Também ontem, representantes da agência visitaram os trabalhadores, assegurando-lhes que hoje as contas seriam acertadas. Os que já trabalharam arrecadariam os montantes que lhes são devidos. E os que ainda não foram colocados em qualquer posto obteriam um adiantamento para se aguentarem.

