Portugueses ateus, agnósticos e laicos, para além do Papa

13.05.2010 - 08:52 Por Alexandra Lucas Coelho
Nos últimos anos surgiram vários grupos de ateus e laicos em Portugal. Para que servem?
Os físicos são especialmente ateus, agnósticos ou laicos? A avaliar pelos grupos surgidos em Portugal nos últimos anos, sim. Há uma presença forte de gente das ciências naturais ou exactas, sobretudo físicos. É o caso de Ricardo Alves, de 39 anos, professor universitário e presidente da Associação República e Laicidade. "Sou ateu, mas também temos católicos, pessoas que acreditam em deus à sua maneira e pessoas que não se definem."
Estes associados juntaram-se em Janeiro de 2003, e hoje são cerca de 100. "A lei da liberdade religiosa criou uma hierarquia das confissões. Não se aplica à Igreja Católica. E achámos que se ia por um caminho perigoso, que não era o país que queríamos, que a laicidade não estava a ser respeitada." Revelaram-se na questão dos crucifixos nas escolas. "Agora, quando há uma queixa, os crucifixos são retirados. Mas os pais são sempre obrigados a fazer algo, o que em meios pequenos pode não ser fácil." Outras intervenções? "Na questão do protocolo de Estado. O cardeal patriarca foi a quarta ou quinta pessoa a cumprimentar o Presidente da República na posse. Conseguimos que o protocolo fosse revisto." Quanto à questão das capelanias (em hospitais, Forças Armadas, PSP, GNR), não tiveram sucesso. "Há 400 lugares de capelão pagos pelo Estado a que mais ninguém pode concorrer. É um caso típico do Estado a financiar funções religiosas. Entendemos que as comunidades podem pagar aos seus sacerdotes."
E nos últimos dias levantaram vários problemas quanto à visita do Papa: tolerância de ponto, uso de dinheiros públicos, interrupção de vias e transportes, saudações de empresas estatais, cobertura da RTP. "Há escolas públicas que fecham, quase todos os hospitais cancelaram cirurgias e consultas, criou-se um efeito de bola de neve que não sei se não será artificial, porque a maioria das escolas privadas não fecha. Pára-se o país para que as pessoas possam ir ver o Papa, ou para que vão ver o Papa, não se percebe bem." E "ninguém diz que o Vaticano não é um Estado como os outros", remata. "Não é membro permanente da ONU porque não ratifica a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Não aceita a jurisdição do Tribunal Penal Internacional. Não tem separação de poderes, não é um Estado democrático. E é o único na cena internacional que representa uma igreja."
Nas vésperas da visita, a associação lançou a petição Cidadãos pela Laicidade, que ao fim da tarde de ontem rondava as 5000 assinaturas.
Como ateu que é, Ricardo Alves também faz parte da Associação Ateísta Portuguesa. E faz sentido existir uma associação de ateus? "Sim. O mais urgente é a defesa da laicidade, mas continuará a haver necessidade de diálogo filosófico e social entre quem tem fé e quem não tem."
Na origem deste grupo de ateus está o blogue Diário Ateísta. E foi aí que em 2004 começou a escrever a química Palmira Silva, de 49 anos, professora e investigadora do Instituto Superior Técnico. "Entretanto descobri que muitos dos participantes eram meus colegas. Temos uma antropóloga e um historiador, mas há uma grande predominância de físicos."
Para que serve uma associação de ateus? "É um espaço de encontro. Quando aparecemos, caiu o Carmo e a Trindade porque queríamos destruir a igreja, quando é apenas confortável conversar com quem partilha a não-crença. Todas as ideias são discutidas e há gente de esquerda como de direita. Não atacamos a igreja. Tenho amigos católicos e levo a minha mãe à missa, a igrejas bonitas. Fico cá fora a beber um café."

