Pedido já foi rejeitado duas vezes

Portugal nega asilo a queniana que fugiu à mutilação genital feminina

18.05.2003 - 07:43 Por Sofia Branco

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 (Luísa Ferreira)
Sem saber sequer onde ficava Portugal, cuja embaixada em Nairobi apenas foi a mais rápida em conceder-lhe o visto de turismo que pretendia, e sem falar uma palavra de português, Susan chegou ao Aeroporto da Portela na noite de 20 de Junho do ano passado, com 38 anos, 70 euros no bolso e ainda a pensar se teria tomado a decisão certa.

Para trás ficaram os pais e um filho menor. Mas, para Susan, a opção era ficar no Quénia e ser sujeita à MGF ou fugir do país de origem e manter intocados os seus órgãos genitais. Susan escolheu a fuga e não se arrepende, embora esteja agora carregada de desilusão face a uma Europa que ela "pensava que protegia os direitos humanos".

Susan aceitou contar ao PUBLICO.PT a sua história, embora tenha, para tal, escolhido um nome fictício.
Tudo começou com a morte do marido. Segundo uma tradição local ancestral — comum em algumas tribos africanas —, a viúva tem de casar um dos irmãos do falecido esposo. Ora, Susan não amava o cunhado e, mais importante do que isso, sabia que ele pertencia a uma seita fanática do Quénia chamada mungiki (ver caixa), que, entre outras perseguições às mulheres, defende a MGF — prática incluída nos rituais de iniciação à vida adulta de muitos países africanos, que, podendo assumir diversas formas, passa sempre por alguma forma de amputação dos genitais femininos.

A excisão é um "acto satânico"

Em conversa num café de Lisboa, Susan explicou, usando o inglês como língua franca (que fala, aliás, bastante bem), que essa tradição de casar com um cunhado é "muito antiga", mas não se coaduna com a educação que recebeu. "É suposto escolher-se com quem casar. Como se pode casar com alguém que não se ama?", questiona, sem esperar resposta. Disse ao cunhado que não queria desposá-lo, até porque ainda "estava de luto e deprimida" com a morte do marido. Algumas ameaças, insultos e ofensas corporais depois, uma amiga casada com um membro dos mungiki disse-lhe que o cunhado pretendia obrigá-la a casar-se com ele e, com a ajuda de um grupo de membros da seita, mutilá-la à força.

Susan já tinha lido sobre a actuação dos mungiki nos jornais nacionais e teve medo. "Não podia ser excisada, preciso do meu corpo, ele é a minha vida. Preferia morrer!". Susan conhecia mulheres excisadas que "aceitaram a mutilação por ser tradição, mas que lamentaram depois". Cristã evangelista, Susan não tem dúvidas: "É um acto satânico, que não vem na Bíblia, é uma doutrina inventada pelas pessoas". No entanto, reconhece, os kukuyu, a sua tribo, acreditam que a MGF faz com que as mulheres "percam o desejo sexual e permaneçam seguras". "Precisamos do clítoris, Deus colocou-o ali por alguma razão", contrapõe, convicta de que escapou por pouco à perda da sua feminilidade.
Além disso, Susan sabe que os instrumentos usados na prática não são esterilizados e tem medo da sida, num país onde a epidemia afecta 14 por cento da população.

A fuga como primeira viagem

Começou a pensar em fugir, "a reunir algumas coisas e documentos". Pára um momento. Suspira, trava uma lágrima e tenta recuperar o sorriso que traz normalmente na tez mulata. "Ainda está tudo muito fresco na minha memória...". O rosto entristece e contorce-se em esgares à medida que vai narrando a fuga. Optou por escapar de Kimunyu, onde vivia, durante a noite, para que ninguém desse conta. Pegou no filho e "no que podia", desceu e subiu montes, pernoitou na floresta escura, reatou caminho quando o sol despontou, desceu e subiu mais montes até chegar finalmente a Thakwa, aldeia onde vivem os seus pais. Na mente, a ideia fixa de recusar submeter-se à "humilhação" de ser mutilada.

Ficou algum tempo em casa dos pais, durante o qual planeou a fuga. A mãe aconselhou-a a aceitar casar-se com o cunhado, a esperar para ver o que ia acontecer. "Não podia esperar mais. Cheguei à conclusão de que era melhor perder tudo e começar do zero".

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Que vergonha! Por que não se dá asilo a esta senhora?

Os srs. do SEF deviam estar mais preparados e sobretudo serem mais sensíveis a estas situações. Um ...

M.Deolinda Lopes Graça

19.05.2003 08:18

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