O aumento das contribuições individuais e o menor peso do Estado deverá uma das soluções para sustentar o sistema de segurança social português, depois de quatro décadas de quebra demográfica "colossal", defendeu o sociólogo António Barreto, em entrevista à Lusa.
"A discussão política hoje consiste em perceber se a proteção social inclui toda a saúde, toda a educação, toda a segurança social", afirmou António Barreto, em entrevista à agência Lusa. "Portugal tem, em média, 1,7 trabalhadores a descontar para cada pensionista. Na Europa, este numero é de um para três ou de um para quatro, o que quer dizer que há aqui um 'stress' financeiro e demográfico", acrescentou o investigador, baseando-se em números da base de dados Pordata, que a Fundação Francisco Manuel dos Santos hoje inaugura.
A Pordata apresenta estatísticas sobre quase todas as áreas da sociedade portuguesa nos últimos cinquenta anos e António Barreto, que preside à fundação, destacou sobretudo a evolução dos números relativos ao Estado providência e à universalização dos serviços de proteção social. " Em 1960/65 havia talvez 140 mil pensionistas, [entre] viúvos, pensões de sobrevivência e de reforma. Hoje existem dois milhões e meio. Isto é brutal", afirmou, frisando por isso que os portugueses dependem cada vez mais do Estado social.
"A quebra da natalidade foi colossal. Estamos em vias de ser a sociedade mais envelhecida da Europa, e éramos a mais nova da Europa há quarenta anos. Ao mesmo tempo aumentou a esperança da vida. É a conjugação destes fatores que cria a dependência muito forte em Portugal", acrescentou António Barreto. O papel do Estado social, sujeito assim a pressões cada vez maiores, vai estar em causa nos próximos 30 anos, segundo o investigador, que prevê adaptações para permitir a manutenção do sistema, que podem incluir a redução das pensões, o aumento da idade da reforma ou ainda o papel cada vez maior dos seguros.
"As pessoas têm que contribuir mais, individualmente, em paralelo com a entidade patronal ou com o Estado. Vão ter de começar a recorrer a companhias de seguros e a começar a planear melhor a sua reforma e a proteção para a doença através das companhias de seguros (...) Se estão só dependentes de uma pensão, é pouco", defendeu António Barreto. "Nesta conjugação residirá uma parte da solução", concluiu António Barreto.
A Fundação Francisco Manuel dos Santos apresenta hoje a Pordata, a maior base de base de dados estatísticos sobre Portugal de acesso gratuito e universal.


