Pessoas submetidas a stress devem ser rastreados a alterações genéticas que levam à morte súbita

29.10.2009 - 10:40
O especialista em genética humana Carolino Monteiro disse hoje que todos os indivíduos que são submetidos a situações de stress, nomeadamente desportistas, devem ser rastreados para detectar alterações genéticas que podem conduzir à morte súbita.
“Todos os indivíduos que vivem situação de risco elevado de stress devem ser rastreados para ver se têm a alteração genética que pode conduzir à morte súbita”, afirmou Carolino Monteiro, em declarações à Agência Lusa, incluindo nesse grupo “todos os atletas federados, as forças policiais e os bombeiros”.
Carolino Monteiro lidera um grupo que há cerca de 10 anos “tem vindo a trabalhar numa das causas da morte súbita, a cardiomiopatia hipertrófica”, uma doença genética e hereditária, que afecta uma em cada 500 pessoas.
A polémica em redor da morte súbita no desporto voltou a instalar-se após o falecimento, domingo, do basquetebolista norte-americano da Ovarense Kevin Widemond, no intervalo do jogo entre os vareiros e a Académica.
Dois grupos da Universidade de Lisboa, um liderado por Carolino Monteiro e um outro chefiado por Alexandra Fernandes, criaram um chip de ADN, que permite diagnosticar a doença, uma das causas mais prevalente e silenciosa da morte súbita.
Carolino Monteiro garante que através da análise do chip, cujo custo ronda os 200 euros, é possível ajudar todos os grupos de risco a reduzirem a probabilidade de acidente de morte súbita.
“A doença não tem cura, nem tem terapêutica ajustada, tem essencialmente uma atitude preventiva, e é nessa situação que é imprescindível que a sociedade portuguesa tome uma atitude de apoiar os grupos de risco, isto é os desportistas, os elementos da segurança e bombeiros”, afirmou.
De acordo com Carolino Monteiro, a análise a uma amostra de sangue é realizada através de “uma matriz que tem o conjunto das alterações conhecidas e que, quando é colocada na matriz, o ADN do indivíduo a analisar vai procurar a alteração”.
Esta análise, que com métodos anteriores chegava a custar cerca de 10 000 euros e a demorar meses, é “rápida e fiável” e só poderá ser realizada a pedido de um clínico, afirmou Carolino Monteiro.
“Estamos, em condições técnicas e científicas, à frente de muitos países, e o nosso modo de rastrear está ao nível de um outro chip que existe nos Estados Unidos, mas a um preço 10 vezes superior”, referiu.
Segundo o professor de genética da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, depois de diagnosticada a doença, “a pessoa deverá ter um acompanhamento clínico muito mais estreito, bem como aconselhamento profissional e genético”.
Caso se trate de desportistas, Carolino Monteiro entende que “estes devem ser aconselhados a parar com o stress a que estão a ser submetidos” e, tal como todos os outros doentes, “instigados a rastrear a família para detectar outros casos”.
Carolino Monteiro disse que, no caso dos desportistas, só uma análise genética poderá clarificar se estes estão, ou não, no grupo de risco de terem morte súbita, porque “o coração do desportista, que é musculado, confunde-se muito com o coração de um doente”.
O especialista acrescentou que muitas vezes as dificuldades na detecção de doenças em desportistas através de outros métodos não são um erro clínico, mas sim uma impossibilidade real.

