O céu ameaça, mas a chuva tem deixado os peregrinos de Fátima em paz. Pelo menos agora, porque durante a noite, a clemência não andou por estes lados. Caiu e caiu, sem dar descanso aos peregrinos que escolhem caminhar nessa altura.
Ermelinda, 50 anos, exausta depois da primeira etapa, entre Coimbra e para lá de Pombal não se quer sentar e ignora a chamada dos companheiros que lhe apontam um banco. “Eu preciso é de me deitar”, diz, antes de se deixar cair numa capa de plástico. Braços abertos, pernas esticadas, descansa um pouco antes de comer qualquer coisa, na sua carrinha de apoio. Depois, será mais um trecho até Barracão, onde as tendas do exército vão servir de tecto ao descanso mais que desejado. “Faço isto há onze anos, mas nunca me custou tanto como hoje. Apanhamos muita chuva. É muito difícil. Os carros parecem que nos empurram para trás, não têm consciência.” Amanhã, Ermelinda espera chegar, mais uma vez, ao Santuário de Fátima. E, lá, o descanso pode esperar – tem por promessa fazer o percurso de joelhos no interior do Santuário. Diz que o faz, porque os quilómetros percorridos a pé “não são suficientes”. E ali, garante, o cansaço já se esqueceu. “Quando se chega ao santuário nada dói”.
De acordo com um elemento da Ordem de Malta, que presta apoio aos peregrinos ao longo do caminho, são esperados no santuário, este ano, 35 mil caminhantes. Amanhã, quase todos devem estar já em Fátima, pondo fim a um percurso que, em alguns casos, foi de quase uma semana.


